Sábado, 10h30 da manhã. Eu, decidida a reparar o erro de não ter feito a primeira revisão no meu carro – já com 22 mil quilômetros – fui ao posto de gasolina trocar o óleo, o filtro do óleo e mais meia dúzia de itens automobilísticos que o frentista me vendeu como essenciais. “Olha dona, não sei como você ainda conseguia ligar o motor!”, disse ele como quem vende a mãe zero km a preço de fábrica. “Tá bom, mas vê se não me quebra porque eu sou pobre…”, rebati do alto do meu cabelo loiro e da minha bolsa rosa, com os pés fincados no metro quadrado mais caro da cidade, na ingênua intenção de ludibriar aquele homem que exercia sobre mim uma visível (quiça risível) superioridade.

Bem, resignada a esperar as cercas de uma hora e meia de cirurgia no meu possante – depois do que gastei, é melhor valorizá-lo -, sentei para tomar um cafezinho, acompanhado de uma água com gás e um Estadão fresquinho com as novidades mundiais. Cansada da crise da Grécia, do trocadilho Jobim-Amorim-Amorim-Jobim, e dos colunistas desgraçando Obama, entrei na loja de conveniência e me rendi à prateleira de revistas. A Elle me chamou, a Lola me seduziu… Tirei a Veja da estante e dei uma analisada no teor da capa, fazendo a sábia consumidora de informação. Mas logo me vi frente às chatas especulações do jornal que havia abandonado há pouco, e decidi me permitir: “Hoje é sábado, Amanda”, disse pra mim mesma em voz baixa, como se realmente precisasse me convencer desse teatral monólogo. E rapidamente agarrei a minha primeira Playboy. Digo ‘a minha primeira’ porque pela primeira vez os meus tostões suados iriam pagar para ver aquelas páginas.

A edição que agora eu entregava para a Caixa do lugar, com uma serena curiosidade para observar a sua reação ao ver a menininha comprando a revista de mulher pelada, é digna de curiosidade. Adriane Galisteu, nos seus quase 40, estrela o ensaio principal. Bem abaixo dos seus seios, na capa de logo dourado, tem a chamada “ENTREVISTA SANDY: É possível ter prazer anal”. Um apelativo convite para os Genaros que um dia cantaram e acreditaram que a Maria Chiquinha precisava cortar lenha no meio do mato…

– Inclusive para a caixa que havia passado a minha compra, que depois do espanto, confessa, pediu para eu lhe contar sobre a entrevista (e sobre o poder que o dinheiro exerceu sobre o shape da Galisteu depois da gravidez). –

Eu tenho hoje 23 anos. Sou da época em que o Sandy e a Junior – um salve aqueles que nunca souberam ao certo quem era o menino e quem era a menina da dupla – cantavam “Vamo pulá!” na Rede Glóbulo nos almoços de domingo. Minha geração já duvidava, mesmo adorando o contexto Malhação do seriado, de que a adolescente de voz inegavelmente promissora, filha dos sertanejos mais representativos do Brasil – além da distinção de sexo, quem é que nunca falou que ela era filha do Chitãozinho e do Xororó, como se eles fossem um casal? -, iria casar virgem, como se explorou durante anos. Faço parte da massa crítica (risos) que um dia falou a respeito da sua pureza exacerbada, nessas conversas que nos levam tão longe que depois é preciso ponderar o tempo perdido (cof, cof).

Enquanto eu lia atentamente a uma entrevista de gente comportada, pra não dizer chata, e o querido frentista tentava justificar cada acréscimo de 60 reais que ele fazia na minha conta, mostrando superfícies cinzas em comparação às branquinhas novas que ele iria instalar – “… A senhora tava respirando sujeira pura com esse filtro de ar condicionado, viu?” – e eu abanava com a cabeça, subordinada ao preço dos seus sermões, refleti. Afinal, de que me interessava o cu da Sandy?

A chamada de capa que já havia causado comentários fervorosos no happy hour da firma, que dominou a página do meu facebook por uns três dias, carregava um prazer quase mórbido… E pior, na verdade era enganosa. Eu estava lendo uma entrevista de cinco páginas de uma cantora, que ali não falava de música, nem de inspirações, nem de bastidores, mas só tentava me convencer de que era uma mulher bem resolvida sexualmente, sem revelar pitacos além da sua coleção de lingeries preta (uau!). Ainda assim, eu aumentava a velocidade da leitura a cada resposta rasa da entrevistada, sedenta por alguma fútil emoção. E acabei me divertindo mais com a desenvoltura engraçadinha e necessariamente cara de pau da sua entrevistadora.

A chamada de capa –como eu já devia esperar – tinha a intenção de botar na boca (e não só lá) da Sandy uma revelação que ela não fez. A imprensa no seu papel (?). Eu, consumidora ocasional e maria vai com as tendências, também cumpria, de certa forma, com o meu ao atender aos anseios daqueles que planejaram a composição “ENTREVISTA SANDY: É possível ter prazer anal”. O cu da Sandy? Continuava intacto para qualquer um que não o seu digníssimo – se é que ele o conhece da forma como foi insinuado.

Enfim, Sandy está cada vez mais cabeçuda (falo com propriedade a respeito), mais magrinha, mais certinha, mais sem gracinha. Sandy não bebe cerveja e não gosta de ficar bêbada porque não se sente bem perdendo o controle. ZzZzZZZZZZ.

A Playboy vale pelas sacadas, contos, e pelo corpo elegante da Galisteu, segundo as lentes de Duran, na paisagem do Sul da Itália. A naturalidade exibicionista com que ela, literalmente, abre as loiras e maduras pernas, qualidade que talvez o Senna não tenha tido a oportunidade de conhecer, essas sim, cabem como vantagens exclusivas dessa edição da querida Revista. Pelo menos foi isso que consolou os quase 400 reais que Joseílson, o frentista do mês da Petrobrás, me cobrou pelos serviços prestados. “Da próxima vez, troca o óleo com a gente, ein dona?!”. Pode deixar, Joseílson, você me rendeu muito mais do que a Sandy.