gente bêbada é mais mostrável do que (só) a coisa que faz gente ficar bêbada

 

Um sábado à noite em casa {cara de dó} e o Facebook me fez perceber que nós, dos 20 e tantos, 30 e poucos, voltamos a um período de consagração da nossa liberdade, a adolescência, quando o assunto é exibir, com recursos fotográficos, a nossa pomposa independência (?) nas redes sociais.

 

Lembra quando você começou a falar palavrão indiscriminadamente pra parecer mais descolado? Ou quando você tomou o primeiro porre e isso rendeu assunto pra semana toda? Quando fez seus pais comprarem aquela bugiganga só porque quem era pop também tinha? Quando fingia que gostava de assistir MTV, quando na verdade quem te mantinha entretido mesmo ainda era Pica Pau fazendo “heheheheheee…!”?

Eu lembro! (E não só das minhas experiências, mas das suas também, amigos ordinários). =p

Pois bem, é sobre relação próxima que hoje, com mais rugas e celulites, ainda vivemos com essa época aborrecente e alcoólatra que eu trato abaixo. Mais especificamente, da interdependência exibicionista que criamos com nossos apps e lindas redes sociais, ferramentas essenciais para esse marketing pessoal torto nosso de cada dia. Observe e familiarize-se.

 

Passou das 22h, e as fotos com três pessoas fazendo careta, duas moças encorpadas em seus vestidos justos e saltos que modelam qualquer batata da perna chinfrim, ou do galerê no carro a caminho da night, dão espaço para as nossas melhores amigas do final de semana estrelarem sozinhas na linha do tempo…

Sakê no copinho quadrado decorado com ideograma. Aquela bebida vinho, que dá nome a sua própria cor (e que há pouco tempo você passou a chamar de Malbec ou Cabernet – assim, feito um sommelier). Uma Veuve Clicquot erguida no ar, na maior prova de que “Glamour, aqui não me falta-me!” (salve, Lady Kate). Chopp suando frio sobre a bolacha do bar. Os súditos energéticos ladeando sua rainha, uma bela vódega Ciroc; todos deitados no gelo do balde prateado, que reflete sutilmente a cabine do DJ. E o Red Label, no centro da mesa, feito o dono engomadinho do camarote.

Tuuudo isso com os efeitos do aplicativo que hoje democratizou essa coisa toda da fotografia bem feita, o Instagram. Uma taça efervescente no foco, umas mãos pra cima desfocadas no fundo, um filtro de cores quentes, e pimba! A arte está postada e o álbum composto, garantia de que todo mundo já sabe que seu sábado foi su-ce-sso.

(Afinal, tão importante quando ter uma noite incrível, é fazer com que os amigos e a ex saibam que a sua noite foi incrível. Tão ou mais importante, aliás.)

 

Bem, agora se renda à nostalgia.

Vai dizer que quando você tomou seus primeiros porres aos 16, não foi super importante comentar sobre aquilo na aula chata de biologia de segunda-feira? Comentar alto, TIPO ASSIM, pro coleguinha ao lado ouvir…

 

Então, novidade (!), hoje em dia a gente nem precisa de uma aula de biologia na segunda-feira! Em tempo real seus amiguinhos já estão comentando como você é descolado e, melhor, as menininhas pensando que seu cartão de crédito super pode render para elas aquela bolsa Louis Vuitton tendência no próximo aniversário, quando vocês já estiverem namorando, apaixonados um pelo outro…! s2

Alertas a parte, beber é incrível. E eu sou uma dessas bêbadas com celular na mão e narcisismo aflorado.

Beber é incrível. A gente fica mais legal, mais solto, os outros ficam mais bonitos. Mas nas próximas vezes, já que a gente gosta dessa coisa de se mostrar, vou me esforçar pra usar a internet 3G pra exibir minhas e meus camagadas mais legais, mais soltos, e os caras mais feios, mais bonitos, ao invés de publicar uma única foto, num cenário meio mafioso, daquela bebida cara e solitária, que nos fez vivenciar isso tudo…

As honras & cultos & congratulações & agradecimentos para ela, a precursora da alegria, eu faço no tête-à-tête, quando a coisa já estiver feia o suficiente pra neguinho querer abraçar o balde de gelo, antes de acordar no lado certo da cama errada no dia seguinte, ainda meio zonzo.

Assim, juro, nossas linhas do tempo devem ficar bem mais divertidas, nossos likes mais sinceros e vamos mostrar que os tempos de Pica Pau passaram, apesar de ainda deixarem rastros bacanas…

Porque ao que tudo indica, a gente bebe pra se divertir – e não o contrário. E com essa coisa da ascensão da classe C, pessoal, tá mais fácil investir na balada – e não só pra você.

 

Obs.

Necessário considerar que talvez isso tudo seja só a prova de que ficar em casa no sábado a noite exalta o seu lado bêbada reprimida, nerds, e invejosa… Uma triste imagem em preto e branco, sem borda que imita filme fotográfico, de alguém que ontem sofreu no edredom com os amiguinhos que esnobaram seus bons drink em fotos garrafais ao estilo Nashville no Instagram.

Me julguem!

Se julguem!