Tive um sonho esquisito ontem… Assistia ao VMB (aquele prêmio anual da MTV, sabe?) e os VJs da casa não eram os astros principais… Sabrina Sato, Charles Henriquepédia, Ratinho, Rodrigo Faro, Nelson Rubens, Danilo Gentili, Vovó Palmirinha e tantos outros, de outras emissoras, é que vinham anunciar os candidatos. E isso foi o máximo! Pensei que só mesmo a MTV pra bolar um conceito tão mudérno.

Mas daí o sonho continuou… E umas bandas com uns menininhos mirradinhos, de nomes estranhos e roupas flúor, é que ganhavam os prêmios: uns tais de “Cine”, “Strike” e “Restart” (o grande vencedor da noite) eram esses esquisitos. Mas era com eles que a molecadinha pirava! Otto, Pitty e Capital Inicial eram os artistas que eu sentia vergonha alheia, sabe? Quando ninguém vibra com os caras? Como se eles fosse velhos, ultrapassados, sei lá…

Pff. Só eu mesmo pra sonhar com um negócio desses: com 22 anos e me sentindo meio out da cena musical que ali vencia nas categorias… Pff! A gente sonha com cada coisa, né? Jééésus.  

Escrevi isso no dia 17 de setembro de 2010.

 

Eu dormi de novo, acordei de novo e percebi que meu sonho esquisito não tinha nada de alucinógeno, era realidade. Fui dividir com outros amigos e eles estavam com a mesma cara amassada de quem dorme profundo e acorda assustado. De quem dorme alguns anos, na verdade. “Não entendi nada. Tô ficando velho…”.

Aproprio-me das gírias idosas (seguindo o clima) para explicar o porque de não termos decifrado ainda esse furacão happy-rock-teen-pop. A “moçadinha” que elegeu essa galera como sensação não fomos nós, Geração dial up. Muito menos vocês, apreciadores de longa data das músicas cheias de atitude revolucionária e paixões proibidas. Foram meninas adolescentes twitteiras, “patota” carente de Elvis, Beatles, Roberto, Erasmo, Bob Marley, Pink Floyd, Michael Jackson, Raul Seixas, U2, The Clash, Titãs, Pearl Jam, Oasis e Charlie Brown Jr.

Criticamos o que soa antiquado aos nossos ouvidos. Aquelas vozes na puberdade… Que falam só sobre amor, estratégia tão básica, tão sertaneja… Mas falam com franjas na cara, calças verdes e apertadas. A força do preto perdendo pra alegria superficial do colorido… Aí criticamos também o que soa antiquado aos nossos olhos. Justin Bieber liquidando bilheterias? Criticamos o que soa um abuso aos nossos anos de pés calejados!

Criticamos porque não tem botox que estique essas rugas. E não estranhe se elas já apareceram na era dos seus 20 e poucos anos… O turbilhão de informações, bugigangas tecnológicas e ausência de horas livres nos taxam de ultrapassados antes de fazermos aniversário. Antes mesmo de podermos reagir, clicar pra votar e exibir nossa síndrome de maturidade musical.

Por mais que você tente se encaixar, a verdade é que foi o tempo, meu caro. Quem apertou o re-start foi o tempo. Ele passou, ele faltou.

meu pé. gordo, tatuado e... descalço.

 

A gente nasce e ganha só nome e sobrenome, dependendo da variável pirulito ou perereca. Fofo, né? Mas aí tomamos fermento e ganhamos escudos. Certificados, estado civil e trocentos outros títulos colados na testa. Assumimos toda essa postura, mudamos a cara no espelho e saímos com nossos personagens mais agradáveis, chocantes ou criticáveis. A matemática é simples: exibir, atrair, impor (e você nem percebe que está fazendo todo esse cálculo).

Freud explica cada uma das facetas, aprendi na faculdade. “Janela de Johary”, certo? Uma pra cada ambiente, uma pra cada grupo: área cega, secreta, aberta e a do Eu desconhecido. Essa deve ser a mais incrível… Só que segundo os psicólogos sabichões que inventaram a teoria (não foi Freud), é justo a que nem você, nem os outros conhecem de você. Poxa, pra que tanto mistério? É a bem-vinda auto-programação social, que nos protege desse pedaço escondido, que às vezes tentamos chegar perto – e, muitas outras vezes, nos afastamos. Se respingou semelhança por aí, fique tranqüilo. Acontece nas melhores famílias.

Hoje somos pai, mãe, filho, neta. Estilosos, bregas. Umbandistas, judeus. Incrédulos,crentes. Gringos, brazucas. Viajados, poliglotas, turistas de cruzeiro. Lusho, ryqueza.  Pagodeiros, DJs, emos. Altões, anões. Héteros, flácidas. Gays, siliconadas. Sarados, porpetas. Populares, nerds. Antenados, out. Estudantes, professores. Apaixonadas, frustradas. Garanhões, quietos comedores. Fieis, judas. Virgens, safadas. Sexys, ruins de cama. Terceira idade, jovens, flores da idade. Geração X, Y, Z, Millenium. Bem sucedidos, desempregados. Recém formados, seniores. Petistas, democratas. Clientes, empresa. Egoístas, voluntários. Alcoólicos sociais, maconheiros. Tatuados, eco-chatos. Caretas, consumidores de sacos plásticos. Japonesas, pretos, loiras. Paulistanos, cariocas. Ufa…

Agora pensa comigo: se lá, quando nos deram nome e sobrenome, oferecessem também um cardápio, quantas dessas (e muitas outras) opções você não escolheria pra si, pra usar feito roupa íntima? Os rótulos nos definem, são como calçar os sapatos pra pisar fora de casa, úteis pra todo dia – mas não pro dia todo. Sábios japorongas que não deixam ninguém entrar em casa com outra coisa no pé, senão a sola.  

(Viu? “Japorongas”. Sou viciada nos muitos rótulos, admiro os mais diferentes)

Mas começamos do mesmo jeito, aqui ou do outro lado do mundo. E podemos terminar tão diferentes… Fiz recentemente esse exercício de voltar às origens e foi difícil pacas! Porém, rendeu. Tolerância, sabedoria e amigos especiais que nem cogitava ter. Aí que deve morar o lance mágico da meditação – mas do jeito tradicional sempre achei impossível fazê-la, porque nunca localizo o botão off do cérebro. Nos minutinhos introspectivos antes de pegar no sono, afundei num método caseiro e intuitivo: ao invés de parar de pensar, pensei e arranquei etiqueta por etiqueta de cada uma das roupas que me cobrem. Se quiser tentar, minha dica é aplicar em si próprio e depois tentar estender aos seus comuns. Não! Veja bem, não é pra imaginar família, amigos e chefes peladões! Pense nos que ama e que te rodeiam se livrando das etiquetas deles. Fiz isso também, mas confesso que preciso de mais prática… Ficar nu ao lado do outro ainda é tabu, resolvi me vestir.

Enfim, a alma agradece o despir solitário, a reflexão de gente grande feito bebê recém nascido de documento pra fora. O universo também. Pra isso, procure o seu vazio. E (só) descalce o próximo!

 

trilha sonora para a leitura: Kings and Queens, 30 Seconds To Mars. 

 

Chega numa altura da vida em que a gente tem de decidir. E tem muito pimpolho, que em coisa de 2 ou 3 dias de idade, vê o seu destino timbrado numa peça de roupa. Se o pai não estava trajado de torcedor desde a hora do nascimento, alguém na rua usava uma do Corinthians ou do Flamengo, já no caminho entre maternidade e casa. Era o empurrão. E você nem sabia.

Daí, quando o ato de ficar em pé não é mais um grande desafio da gravidade, apesar de ainda usar fraldas, algum marmanjo vai lhe propor sua primeira peneira. Processo simples: rola-se uma gigante coisa redonda em sua direção e espera-se para ver a desenvoltura dos seus pezinhos. O par, ainda sem tamanho pra competir sequer com um gomo daquilo, rebaterá com uma qualidade que só um avô/tio/irmão com visão raio coruja é capaz de enxergar. E toda aquela gente grande e com cabelo curto que estava ao redor do feito, traçará, ali, o seu futuro profissional. Atacante, meia, lateral, volante, goleiro, canhoto… Pobre deles. Nem imaginam que no fundo você só foi se defender.

Foi um reflexo, não um chute, meus caros! Alguma mulher ao redor alertaria. Como se adiantasse. 

Até a festinha de 4 anos, você acompanha a cidade virar um antro de variações das cores verde e amarelo. É a tal Copa do Mundo, casa cheia, TV ligada. E aí sim: ser jogador é totalmente excelente! Todo mundo grita seu nome, pede o seu lance, xinga seu adversário. E quando a rede balança, todo mundo vira todo mundo mesmo. Todas as janelas vizinhas, todas as cabeças pra fora e todas as bandeiras sendo sacudidas. Em tempos modernos, todas as vuvuzelas esperneariam! Sua meta de vida, nessa hora, passa a ser a disputa por uma vitória vestindo a camisa da seleça.

A paixão é certa e a escolinha de futebol também. Você ganha um professor fora da sala de aula, um monte de coleguinhas hiperativos e um novo tipo de recreio, obrigatório na semana (e bacana por assim ser). Campeonatinhos vêm e família, vizinho e papagaio vão, para a arquibancada, como torcida. Mas a maioria ali age como parte da comissão técnica.

 A bola não assusta mais, virou melhor amiga. E você? Virou promessa! A promessa do futuro próspero, do sucesso, do dinheiro e do comentário do Galvão Bueno. As espinhas invadiram sua cara e o pessoal passou a te disputar nas equipes de campeonato do colégio. Te deram faixa de Capitão, ora ora. O sonho dá uma encorpada, você elege um grande exemplo de craque, provavelmente jogando no Milan, e entra na base de algum timéco. Uma nova qualidade, perceptível a qualquer pessoa próxima, e ainda sem nenhum sinônimo na língua portuguesa, passa a te rondar. Boleiragem. O incentivo mais atraente pra tanta? Fãs de saia, que num futuro próximo ganhariam outro apelido (derivado).

O tempo passa, a responsa bate e a família pesa, Homenzinho. A maioria dos seus amigos abre mão, vai ralar num escritório, quer badalar nos finais de semana ou estuda jornalismo, na tentativa de virar estrela do Globo Esporte. Mas você não. Até hoje, é refém dela. A bola passou de coisa esquisita, redonda e grandalhona, a melhor amiga e, agora, ladra. Roubou a vida perto da família, a alegria das noites mal dormidas, o sabor do feijão de casa e o afago da namorada. Mas ela ainda te seduz com o poder insuportável do viver do sonho. Do ser fiel a toda essa sociedade que um dia te idolatrou, depois te desacreditou e agora até dá uma agoradinha (de leve). Ela abusou da sua necessidade de provar que ainda dá tempo. E te provoca com toda a graça declarada das boleironas de plantão, que trocaram a saia pelo silicone parcelado e pelo cabelo loiro tingido.

Quando você era cotoco ninguém te disse que profissional acorda às 6h da matina pra correr feito o papa léguas e pra enfrentar a inveja dos seus únicos próximos, conhecidos como time, equipe. Ninguém te disse que você não iria comer carne de primeira todo dia e que, ainda assim, teria que monitorar a balança. Ninguém te disse que você viveria sob uma pressão psicológica infernal e que uma máfia corrói (também) esse sistema. Nem que assinar um novo contrato não é garantia de salário em dia ou que vencer uma partida é só a primeira gota de suor para a próxima batalha, que começa no dia seguinte, debaixo de sol, num treino físico de arrebentar qualquer ligamento. Ah, alguém avisou que a imprensa de Piraporinha do Bom Jesus iria te devorar?

Não os culpe. Eles, que não te disseram, provavelmente não sabiam. Passaram pra você a frustração própria, propaganda enganosa de vida glamorosa – que ainda acreditam existir. Mas hoje também não sabem que entrar no campo e ouvir torcedores é mágico e que suar num jogo que vale pontos, num campeonato sem aposentados perna de pau, é como varrer um monte de problemas pra baixo do tapete. Muito menos que transformar uma faísca de esperança em projeto de vida é comprar uma briga consigo próprio.

Percebe agora? O papel principal da bola não era te fazer vestir camisa, meião e chuteira pra posar na foto. Era roubar o que tinha por baixo de tudo isso: seus sonhos. Ela quis protagonizar, virar objetivo primordial. Conseguiu, fera. Fez de Deus o seu maior ombro amigo e da solidão a sua maior escola.

Lá, no começo, só te rolaram a bola… A culpa não é deles, é dela.

Então tá, nosso presidente agora vai ser presidenta. Palmas para a conquista feminina! Mas que essa onda da superação do machismo dê espaço para as reais habilidades de Dilmoca no cargo. E que a onda do PT com síndrome de Peter Pan também passe, ao lado da onda das vozes preconceituosas que reduziram os nordestinos, em sua totalidade, a uma massa ignorante e incapaz de escolher seus regentes. Desejo ainda que as marcas de derrota que abatiam José Serra enquanto proclamava seu discurso de “Até logo” (adorável, por sinal), nos lembrem que na vida há perdas e ganhos e o grande barato é saber lidar com as primeiras. E que a postura daqueles que não chegaram até a reta final nos façam refletir de que muitas vezes ficar calado é necessário, sábio e estratégico; e que outras vezes se posicionar com uma transparência exacerbada pode ser cativante! Parabéns Dilma, Serra, Marina e Plínio, respectivamente.  

Marcado pela polêmica, o resultado do nosso segundo turno sacudiu. Sacudiu opiniões fervorosas, exageradamente humanas, sinceras e jovens! Na era do twitter, entendo que uma das características mais importantes desse evento democrático não foi só a eleição presidencial de uma mulher – e sim a disputa de votos dos jovens-banda-larga que soam participativos. Eles (os candidatos) foram chegando e a troca foi recíproca. Falo por mim: me senti com poder, fui levada em consideração, me reconheceram como futuro – e não só no discurso, amém. Ainda assim, lamento pelos vários colegas que foram badalar distantes de seus colégios eleitorais, em ocasião do feriado. E, em tempo, sugiro aqui uma pesquisa ao Ibope: da abstenção recorde que se apresentou, qual porcentagem de jovens twitteiros preferiu pisar em areias diferentes? É bom saber até onde vai o comprometimento dos nossos 140 caracteres…

Mas de volta à grande personalidade que vamos formar, decidi me retratar. Em memória ao meu último post, eu confesso que vi uma pessoa eleita bem diferente do que quando candidata: ela baixou a guarda, sorriu por completo e deixou isso transparecer nas suas expressões. Arrisco dizer que enxerguei paz nos seus olhos e muito, mas muito mais sabedoria. Por isso, te ofereço minhas sinceras desculpas se estava errada sobre suas intenções, vossa excelência. E lhe suplico pra que não me faca me arrepender de lhe falar isso… Ah! Torço pra que continue me surpreendendo. Mas sem fantasma, tá? Mostra pra gente o seu peito próprio (porque mulher não tem culhão, dãr). 

Estamos juntos nessa, Brasil. Nada mais incoerente que continuar na ignorante oposição – veja, ignorante, e não crítica! -, respondendo à altura da antiga agressividade que marcava as sobrancelhas da presidenta antes da vitória. Sejamos construtivos e não mandemos mais nosso país para nenhum outro lugar, que não o melhor. Somos um Brasil imenso, diverso e rico. Rico de sabedoria, mesmo que popular. E quanto à hipótese remota de nos separarmos em dois, pare de ser careta! Só somos bacanudos por sermos assim… Aceitemos nossa realidade, aprendamos com ela para, então, melhorá-la. Daqui pra frentex, digestão, Brasil. Não é mais tempo de ser Dilma ou Serra. É tempo de ser imparcialmente bra-si-lei-ro.

ps. Perceberam que ela estava de azul na entrevista do JN? Hum…  (#naoresisti)

toda trabalhada na linguagem corporal

Estamos a poucos dias de definir os próximos quatro anos do Brasil e, por mais clichê que soe essa frase, ela é verdadeira. Tendo em vista o tempo apertado, serei objetiva. Começo no “eu confesso” e, se você se identificar, vêm comigo. Eu confesso que não estudei a fundo as propostas pra saber quais são as perfeitamente coerentes com nossas carências, até porque entendo que as deficiências brasileiras são tantas, e com tantos obstáculos escusos, que é quase impossível haver um equilíbrio pleno e saudável. Vejo aqui da superfície geral, ambos os candidatos apresentando idéias bacanas, que vão de encontro com as expectativas mais urgentes da sociedade. Mas o tira teima que, num mundo ideal, focaria a comparação crítica de propostas, fica a cargo da brincadeira da eliminação – no Brasil, leia-se: m&#$@ no ventilador. É que quando a elegância vai embora, parceiro, fica a taxa do eu sei (salve, em tempo, Nascimento!).

Friso: a caça às bruxas não nasceu no eleitorado barraqueiro, nasceu na falta de ética, comprometimento e hombridade do cenário político, que hoje nos obriga, ao invés de fazer votação, eliminar a pior opção. Esse mete-dedo-no-escândalo-do-outro incontrolável virou pauta obrigatória do segundo turno para os comentaristas políticos. A mesmisse do lado de cá reflete o mais do mesmo do lado de lá, nada mais natural. Portanto, vim falar de coisas que vão além do debate e dos apelos sensacionalistas.

Antes, esclareço pontos relevantes. Caros candidatos: suas campanhas com multidões gesticulando o número 13 ou 45, você sorrindo e chamando a pátria no microfone, aplaudido por seus coleguinhas interesseiros no palco, não me tocam. Prometer educação de qualidade, transporte público decente, dizer se a Petrobrás é minha ou da gringolândia, e se você conhecia Preto ou era cúmplice da Erenice, se tornaram argumentos tão repetitivos e, para os quais, suas retóricas já estão tão ensaiadas, que eu fico zonza tentando te sacar. (Se era esse seu objetivo, caro homem de comunicação por trás deles, parabéns!). Também já manjo suas cores de blazer, suas poses estratégicas e seu olhar emocionado. Dou, ainda, risada da mudança repentina de trilha sonora nas suas propagandas: uma orquestra quando o locutor fala da sua origem humilde e íntegra (com fotinhos fofas de tão constrangedoras que são), e outra, digna de filme de terror, quando você cita a oposição, acompanhado por um jogo de luz depressivo sob manchetes nos jornais. Juro que, mesmo assim, tento quase todos os dias decifrar mais um pouquinho dos estímulos a que sou exposta… E antes que você venha me falar de histórico, de importantes referências curriculares do passado, saiba que não acho isso suficiente. Por quê? Porque as pessoas mudam e a roda gira. Especialmente em Brasília, né candidato? Como gira!  

Exausta, cheguei, então, numa decisão ultra pessoal, sem nenhum suporte científico: vou partir pra critérios subjetivos. Às favas quem me critica! Dou mais valor aos meus sextos, sétimos e vigésimos sentidos do que aos e-mails “confabulosos” que chegam diariamente na minha caixa de entrada. Os youtubes e wwws da vida não me acrescentam mais coisas novas, desenvolvi receio das mensagens dos líderes do jornalismo, e nem meus ídolos se portam mais como confiáveis… Tô assim, feito bichinho acuado e resolvi me defender com as armas mais pré-históricas.   

O negócio é o seguinte: ninguém ali é anjo, eu sei. Mas tem gente com cara de demo. Dilmoca tentou consertar a aparência fechada e pesada consultando os melhores profissionais de moda e beleza do Brasil, digníssimos Alexandre Herchcovitch e Celso Kamura. O último, cabeludo, não só reformulou as madeixas dela, mas aprimorou o que mais me assustava naquele personagem áspero: suas sobrancelhas. E mesmo arredondando as famosas molduras do rosto desta mulher, pra que vibrassem menos arrogantes, elas continuam fantasmagóricas – ao menos pra mim. Pobre Kamura, seu trabalho foi perfeito! Mas existe uma coisa chamada linguagem corporal, que é quase que uma verdade absoluta, um DNA imutável que nem o botox supera. E as feições de Dilma são extremamente agressivas… Não um agressivo “bom”, de quem tem vontade, sangue nos olhos pra botar a mão na massa. Não. É um agressivo do mal, como se impaciente pelo domínio. Uma das provas está no esforço inegável que esse rosto faz para soltar um sorriso e, mesmo depois de conseguir sorrir, as expressões não acompanharem a energia do ato… O olho nu percebe: ela fica desconfortável. Mas as tais sobrancelhas são as partes com mais vida própria nesse conjunto. Se exaltam e perdem as estribeiras antes da preparação marketeira dela conter seus impulsos. E roubam a minha atenção. A candidata pode estar contando carneirinhos ali, ao vivo. Eu vou estar sempre focada na desenvoltura daquela dupla prepotente, que vira e mexe desmente sua mamãe.

Então é isso. Expliquei. O voto é secreto só se eu quiser fazer dele um segredo. E não tenho porque fazer, afinal meu rabo de bichinho acuado é solto. (Viva! Ao menos o meu rabo se salvou!). Ele é tão livre e abaixo do muro – diferente de vocês, senhores adversários – que me deixa dividir com os amigos que eu não quero dar poder pra quem me sugere medo, até porque já existem vários representantes desse tipo distribuídos no sistema. Então, chega. No que tange a minha escolha no próximo domingo, pro mais alto cargo do meu amado Brasil, vou de vampiro, vou de Sr. Burns do Simpsons… Mas eu confesso que não vou, de maneira alguma, na alma que esconde outras coisas, bem além da ganância. Não é uma questão de carisma, nem de saber mentir. O buraco é mais embaixo. Filosofia barata? Os malucos beleza hão de me entender.  

caricatura (incrível) de Lucas Alvarenga

a fórmula perfeita pro mocinho de catiguria

Certa vez eu estava em Las Vegas, com uma amiga, numa festa de dia na piscina de um cassino – pense em loiras peitudas com biquínis fluorescentes e gigantes na bunda como 80% do público. A black music tomava conta, ao lado das consagradas músicas eletrônicas. Mas uma hora o DJ surpreendeu. Talvez a nossa parte de baixo (minha e da minha amiga) declarasse que nós não éramos “made in USA” e ele foi bacana, tentou nos agradar. Talvez não. O fato é que as caixas de som, entre uma música do Snoop Dog e outra do Usher, soltaram um tal de PARAPAPAPAPAPAPAPAPA PARAPAPAPAPAPAPAPA PAPARA PAPARA PAPARA CLACK BUM! A batida de funk foi suficiente pra que nós trocássemos olhares felizes e, se bobear, até simulamos uma metralha nas mãos pra dançar… Avoadas, né? Não. Era como um grito naquele cenário de clipe americano de que: “ei, nós somos brasileiras!”. Difícil explicar essa sensação de orgulho, ainda mais tendo a letra do “Rap das Armas” como pivô. Os hipócritas que me perdoem, mas é bem semelhante ao que acontece na sequência de Tropa de Elite.    

Numa das experiências mais aguardadas pro mês de outubro (ir assistir ao longa) identifiquei, de novo, essa força da música certeira. O filme começa com a pegada certa, porque traz o funk perfeito. Você vê gente se sacudindo nas cadeiras ou só balançando os pés, ritmados pela expectativa de assistir aquela mistura meio doida, agressiva, 50% ladrão, 50% policia. Entendo esse efeito como o reflexo mais puro da massa brasileira dos últimos anos: revoltada com a violência, sensibilizada com a realidade, carente de proteção, explorada pelos sensacionalistas e estapeada com a cena política. Mas ainda assim, com um verde e amarelo fincados no peito. E Padilha reuniu tudo isso: nossos defeitos, verdades e patriotismo insistente. Dá pra entender as reações do público que assiste a saga, se revezando na identificação entre o favelado e o burguês, com a mesma vontade que Capitão Nascimento, agora Coronel, tenta assumir o comando justiceiro dentro da Secretaria de Segurança do Rio.

A trama se desenrola de um jeito sanguinário, mas com mais raciocínio que a primeira versão. É um filme pra homem e pra mulher. E com razões de berço, a começar pelos homens. Qualquer um daqueles ali já brincou de bandido e mocinho, já foi sedento pra segurar numa pistola (sem duplo sentido, meus caros) e ter a sensação de poder que o protagonista exibe. A maioria ali também se diz fiel aos parceiros (vulgo amigos) e todos já brincaram de super herói. Arrisco dizer que alguns sofrem até hoje dessa síndrome…

Mulheres, vamos lá. Ele tem olheiras, papo, testa grande, cabelos grisalhos (não do tipo William Bonner glamoroso – do tipo descuidado mesmo), fala grosso, de meia dúzia das suas palavras cinco são palavrões, prioriza o trabalho à família e ainda é mal humorado. Mercenárias, nem grana ele tem. Ah! Ele não é alto e anda esquisito. Mas ainda assim arranca nossos suspiros. E eu lhe pergunto: por que tanto alvoroço?! Tento responder: Roberto Nascimento é a personagem amadurecida do olho que tudo vê, do homem estratégia, do cara que te oferece proteção. A ex mulher vê ele chorar e não mexe um dedo pra lhe fazer um cafuné… Doeu em você também? Tá pra nascer sex simbol maior que esse.

Não me surpreende, ainda, que o filme não ganhe prêmios internacionais. Antes de ser pra homem ou pra mulher, é um filme pra brasileiro entender. Oportuno, vem em época de eleição, de corrupção, de nervos a flor da pele (e não à toa você ouve gente dizendo estar arrepiada quando sai da sala de cinema). O slogan diz: “o inimigo agora é outro”, mas a cada dia que passa, percebemos que o inimigo sempre foi o mesmo.

Com uma reflexão meio patológica, deixei o filme satisfeita e assustada. Não era pra gostar: mudo de canal nos filmes de ação, crime e simpatizantes. Prefiro ser amornada numa comedia romântica de quinta, ver a Julia Roberts de prostituta em 1900 e bolinha ou chorar assistindo A Lista de Schindler. Mas eu gostei. Gostei da qualidade técnica, do elenco, da trilha sonora, da esperança de ver gente que não se vende e, principalmente, de saber que é brasileiro. Sai de lá como se tivesse desabafado por horas, mas ainda com um peso na consciência…   

O Sr. ator de primeira linha Wagner Moura interpretou ali, na verdade, tudo o que a gente um dia pensou – em silêncio ou não – em fazer com o traficante que mata criança, com o polícia que se vende ao ladrão e com o político que dá corda pra tudo isso acontecer. Sem hipocrisia, confusa confesso que ele lava a nossa alma (mesmo que por duas horinhas, via imagens de alta definição e no conforto da cadeira reclinável do shopping center). Coronel Nascimento é um animal com tanta emoção e, no fundo, inocência, que chega a ser humano. Tinha sangue nos olhos como profissional e lágrima nos olhos como homem. E não há magia maior do que ser de carne, osso, ira e coração. Que Super Homem, que nada. Eu prefiro os de verdade (?). Aposto que os milhões de brasileiros que sentarem lá vão preferir também… Coisa que gringo fã de Homem Aranha e Snoop Dog nunca farão (ou nunca serão!).

Tropa de Elite. Osso duro de roer. Pega um, pega geral e também vai pegar você. Já diria o funk certeiro.

pari esse texto em 22 de outubro de 2010

a próxima, por favor.

Nos dias que sucedem a votação das Eleições 2010, sinto minha cabeça latejar como uma manhã after bebedeira. Aqueles flashes que rondam essas ocasiões geralmente me fazem lembrar de tombos ou de uma sinceridade atropelada, que sempre resulta numa bola fora com algum conhecido – ou desconhecido. Mas, no caso da ressaca eleitoral, os flashes não vêm do meu cerebelo e nem geram conseqüências particulares. Vêm dos meus suplementares modernos e virtuais: twitter, facebook, e-mail. E atingem o maior país da América Latina.

De esquerda, direita, fãs do Bozo ou não, até agora não vi ninguém 100% satisfeito com o resultado do primeiro turno. E, como os flashes de uma ressaca de 51, o presente nos faz lembrar daquilo que gostaríamos de poder esquecer ou apagar do passado. Os amigos, assim como eu, fazem uso desses outdoors online pra mostrar a indignação e, de certa forma, se livrar de uma vergonha brasileira… Culpamos a ignorância, a mídia, o abuso, as leis, o governo, tudo. E só se fala nisso: em quem é o culpado. Nada mais natural.

Mas eu já sinto meus miolos torrados de tanto pensar, tentando achar um réu pro cenário que se configurou. Porque assim como a gente tenta justificar com muitos argumentos as roubadas que se mete quando está pra lá de Bagdá, tentar achar um único responsável pelo golpe da eleição do pai do Florentina de Jesus é se enfiar num labirinto de possibilidades. Afinal, ressaca braba mesmo só acontece quando você faz uma miscelânea de bebidas… Revolta, burrice, manipulação? Todas essas, juntas e misturadas.

Ele superou 1 milhão de votos. Ponto.

Ciclo vicioso maior do que nossa política cancerígena é jogar um problemão coletivo no colo do outro (qualquer um, contanto que não o seu). Sugiro pararmos de tentar achar o culpado, e deixar isso pros historiadores e sociólogos que virão depois de nós. Quero achar uma solução, nem que ela demore 4, 10 anos. Óbvio, se vier antes, melhor: torço pro Tiririca não conseguir escrever a carta. Mas preciso da solução, de verdade, nem que ela exija que eu perca a fadiga do meu conforto e vá dar aulas voluntárias sobre direito eleitoral em comunidades carentes. Ou que me faça incorporar o espírito sessentinha pra sair na rua e gritar pelo voto facultativo. Já pensou nisso? Na sua parcela real de contribuição (e esforço) pra que não cruzássemos o limite do ridículo?

Quero parar de reproduzir os flashes. O melhor Engov pra essa ressaca (e para efeito semi- imediato) não é a reflexão… Apesar de eu ser loucamente apaixonada por ela! Aliás, nem eu nem você estaríamos aqui sem a tal. Mas quero engolir a cartela da vergonha e passar pra próxima dose. Alguém me acompanha?

pari esse texto em 6 de outubro de 2010

 

Recém chegada ao Brasil, depois de 40 dias fora, dei um Google pra procurar as notícias sobre as Eleições 2010. E aí, além do posicionamento dos candidatos carimbados, achei vários vídeos engraçados – pra não dizer trágicos – com recortes do horário eleitoral, que já viraram febre nas mídias sociais. Agora, o Enéas não é mais a única bizarrice das propagandas, que arrancava da gente aquela risadinha descomprometida. Ele é só mais um, quase incapaz de concorrer com as “celebridades” que ali apelam pelo meu voto. Mas o curioso é que elas não se preocupam em me dizer o que farão pelo país. Só me forçam a lembrar porque um dia se tornaram famosas… E daí, aquela risadinha descomprometida que eu dava do Enéas, virou revolta

Entre as figuras estão Ronaldo Esper, querendo “agulhar os políticos pra mudar Brasília” e Marcelinho Carioca, “querendo jogar no mesmo time que eu” (?). Tem também os que usam da sombra do descobridor da fórmula do ridículo, como Luciano Enéas – o filho – usando o óculos emprestado do papi e a assustadora Luciana Costa, soletrando “pe-do-fi-li-a”, no mesmo tom do seu ex-professor. O nepotismo dá as caras até aqui (Mas já, companheiro?): Kiko, cantor do Grupo KLB, recorre à popularidade do irmão bonitinho pra impulsionar a campanha. Os filhos de Ey Ey Eymael e do chapeleiro Raul Gil fazem figuração na telinha, enquanto os seus heróis sugerem que eu os escolha. E aí vêm os meus preferidos: Mulher Pêra, trajada com um espartilho digno da era Vitoriana, usando o seu solitário argumento que de “Jovem vota em jovem”; Mara Maravilha dizendo que conta com o meu voto pro esposo dela, um servo de Deus – afinal, “Política abençoada começa dentro de casa”; e o mais especial de todos… 

A música de fundo chama Florentina (de Jesus). E ele aparece trajado para o carnaval. Usa a mesma peruca, o mesmo chapéu e faz a mesma voz que sua personagem. Ele é Tiririca. Sim! O famoso humorista quer ser Deputado Federal! E nós sabemos que ele é um cidadão com plenos direitos pra tal. O problema é que fico na dúvida em quem eu estaria votando… Tiririca tem sobrenome? Pois Francisco Everardo – você não leu errado – Oliveira Silva tem. Mas ele não aparece na minha telinha… Quem aparece é o tal Tiririca. E ele é muito engraçado. Faz dancinhas, brinca comigo. Brinca tanto que me desrespeita. Ele fala errado, faz frases sem sentido e é de propósito. Me diz que quer ser deputado, mas não sabe o que faz um deputado. E ainda, pra fechar com chave de ouro, sorri cantarolando o slogan dele: “Vote em Tiririca, pior que tá não fica. Vote no abestado!”.

E é assim, com uma xícara de sinceridade dolorida, outra porção de apelos pobretões, e uma colherada de jargões teatrais, embalados em roupas estranhas e trejeitos esquisitos que zombam do meu e do seu direito. É com uma popularidade falida que hipnotizam a ignorância brasileira, confundem a sabedoria popular e atrasam o nosso desenvolvimento.

E pro politicamente correto que afirma que estou sendo preconceituosa, entenda isso como um desabafo sincero. Até outro dia, Mulher Pêra parecia atriz pornográfica tentando a sorte como dançarina de funk – e não o contrário. E eu não quero que ela me represente. Tenho medo das leis que ela iria elaborar. Mas ela insiste em querer o meu voto “jovem” pra virar Deputada Federal.

Mas se eu fosse um menino… Talvez eu votaria na Mulher Pêra dançarina e gostosona. E quantas fãs do grupo KLB não votariam no Kiko, porque ele é o sonho de consumo delas? Quantas pessoas que gostam do humor Tiririca não vão achar graça da sua propaganda eleitoral e traduzir essa simpatia na urna? E é desse abuso que eu tenho medo. Pois não consigo achar outro nome pra essa apelação marketeira, senão, abuso.

Enquanto a educação do povo brasileiro não supera os níveis básicos pro bom entendimento da nossa democracia, mais e mais candidatos se aproveitam da nossa inocência. E eles conseguem se aproveitar porque, infelizmente, a Constituição Federal só prevê como inelegíveis os analfabetos e inalistáveis… Mas, por mim, muitos outros entrariam nessa lista. A começar pelos abestados.  

pari esse texto em 20 de agosto de 2010

 

trecho disso tudo. saiu na Coluna Opinião do Jornal A Tribuna.

 

Essa semana vi um post no twitter da Revista Vida Simples pedindo histórias de leitores sobre a pauta “À sombra da perda”. Foi bem automático pra mim, ao ouvir falar em perda, pensar em morte. E daí eu corri pra minha caixa de saída e estapeei meu teclado durante 5 minutos escrevendo um e-mail de alguns (vários) mil toques para a redação. Mais tarde entendi que o foco “perda” à que a Vida Simples estava se referindo, nem era esse… Mas como não acredito em coincidência, vi que o que escrevi no tal e-mail há uns dias atrás, tinha tudo a ver com hoje.

Hoje, dia 21 de outubro de 2010, faz dois anos que a maior dessas perdas se concretizou na minha vida. Mas eu prefiro não pensar assim. E explico aqui replicando parte do que mandei (talvez erroneamente, rs) pra redação da tal Revista.

Tenho 22 anos e já “perdi” muita gente. Foi vó (as duas), vô (os dois), madrinha (aquela tia que você sempre chamou de preferida, sabe?), outros familiares fofos e o mais punk de todos: perdi meu pai. E meu pai era único – assim como todos os outros são.

Com essa sequência non grata, que vi acontecendo enquanto era pequena, fui também me acostumando a não ter a morte como uma morte. Confuso? Fica mais simples quando sua mãe te leva no velório e mostra que ali não é lugar de fantasma, nem só “de adulto”. É a vida, acontecendo na sua sequência mais verdadeira.

Vejo muita gente se descabelando por uma coisa inevitável (sim, há exceções, trato aqui das mortes ‘naturais’), tendo medo daquilo que ninguém escapa. E nem teria por que querer escapar… Ou você gostaria de viver até os 200 anos? Eu não. Gosto do meu corpo com liberdade de movimentos, com força pra acontecer, sem vícios. Gosto da minha cabeça podendo tomar decisões, gosto de saber que estão me entendendo e de poder ser teimosa sem ter ninguém querendo me jogar uma pílula goela abaixo pra acalmar meus ânimos. E aos meus queridos idosos, não me entendam mal. Admiro e invejo tua sabedoria e abro o coração pra qualquer sermão de décadas passadas – mesmo que for pra me ensinar que leite com manga mata. Acredite: eu vou ouvir e dar corda, com todo o carinho e respeito sincero que lhes dedico. Mas acho que tudo tem que ter um fim.

Comigo foi assim. Aprendi que a gente não pode ter pra sempre aqueles que conhecemos desde o começo da vida, ou pelo menos não do mesmo jeito. Aprendi que quando a saudade aperta (porque no fundo, no fundo, o que sobra da morte de mais puro é a saudade), o que tem que te alimentar não é a dor do “nunca mais vou ver“. Porque eu posso fechar o olho e ver, sentir, abraçar. Me arrisco até a conversar. E é sempre delicioso… (já tentou?)

Falei da pureza da saudade, porque às vezes a gente confunde as coisas. Minha mãe costuma dizer que as pessoas deveriam morrer pobres. E eu concordo. Todo mundo devia gastar seus quinhões em vida, fazendo o que achasse por bem fazer. Não há nada mais decadente do que depois da morte daquela pessoa especial, você ter que ver o saldo na conta dela. Essa divisão dos pães deveria ser cremada, querida sociedade.

Mas além da importância da energia que passa a te rondar depois do episódio – nada de preto deprê pela casa ou grito com os irmãos sobre a venda da propriedade ‘tal’ -, não posso negar a relevância das religiões. Pedir pra Deus cuidar, pro anjo guiar, pra flor que você encomendou em pensamento chegar lá… são algumas das coisas que aprendi com o espiritismo. E cá entre nós, nem precisa ser fã de Allan Kardec pra entender tudo isso. A mensagem mais simples e mais eficaz que assumi pra lidar com a morte foi: “Se eu ficar bem, e em paz, eles também vão ficar”. Porque uma das teorias mais bonitas dessa religião defende isso, que a tranquilidade de quem fica e vê o outro partindo é essencial pra que eles evoluam espiritualmente. E é maravilhoso pensar que seu esforço daqui pode ajudar por lá!

Pra provar que, no fundo, a maioria das religiões fala a mesma coisa, com dialetos diferentes, mostro aqui o poder do catolicismo, na qual também me apoio. No dia em que tive que dar adeus à aparência do meu herói, enquanto o padre fazia a oração e eu olhava pro olhinho dele fechado ali – ao mesmo tempo tão perto e tão longe de mim – recebi a seguinte oração que faço questão de entregar pra qualquer pessoa que acaba de passar pelo mesmo.

Se você me ama, não chore por mim.
Se você conhecesse o mistério insondável do céu onde me encontro…
Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e vejo nesses horizontes sem fim e nesta luz que tudo alcança e penetra, você jamais choraria por mim.
Eu estou agora absorvido pelo encanto de Deus, pelas suas expressões de infinita beleza.
Em confronto com esta nova vida, as coisas do passado são pequenas e insignificantes.
Conservo todo o meu afeto por você, com aquela ternura que sempre nos devotamos.
O amor que lhe dediquei permanecerá na eternidade, íntegro e forte… E eu sigo na serena expectativa da sua chegada.
Pense em mim em plena alegria da vida, pois nesta maravilhosa morada não existe a morte.
Se você verdadeiramente me ama, não chore mais por mim.
Eu estou em paz, eu estou com Deus.

O autor da linda sequência é Santo Agostinho. Adivinhem o nome do meu pai… (Acaso? rs). E a oração tem tudo a ver com ele: o cara não piscaria uma vez sequer pra decidir se preferiria ver os passarinhos voando num céu paradisíaco ou me ver chorando. Soa óbvio? Pode ser, mas só quem conviveu com ele sabe da intensidade dessa verdade.

Enfim, entre as conversas cabeça que tenho com meus amigos e amigas nos bares da vida, a morte é um tabu. Ainda sinto o corpo deles se retraindo quando alguém toca no assunto, seguido de um olhar tímido e arrependido daquele que mencionou o tema – como se aquilo fosse uma bola fora que iria acabar com meu dia… E o que tento explicar até hoje pra esses seres incríveis que me rodeiam é que, ao contrário do que pensam, eu não fui FORTE quando meu paizinho partiu. Não é essa a palavra. Outro dia, uma delas me disse: “Você estava acalmando as pessoas no enterro, não era pra ser o oposto?!”. E eu respondo: escolhi assim. Escolhi entender que aquilo era o melhor.

Dor maior do que ver o grande homem da minha vida numa UTI por 20 dias – sem poder nadar, sorrir e comer uma macarronada – não existe. Saber que ele não iria mais sofrer era a minha cura. Eu não precisava me agoniar, o pior já tinha passado.

Meu pai é meu pai. Sempre será. E o que ele me fez ser, ninguém desse mundo muda.

Esse vídeo eu fiz pro meu Agostinho, assim como a tatuagem que aparece no final. Passei horas procurando e escaneando fotos que traduzissem a simplicidade magnífica daqueles olhos azuis. E lidei com o choro dessas horas… Atenção! Lidar não é engolir. É aceitar aquelas lágrimas. Confesso que até hoje despenco quando assisto. Só que é um choro bom, me limpa. Faz pensar que ele está assistindo comigo.

Paizinho, luz. Hoje faz dois anos que a saudade me fez te amar mais. Esse post é seu. Pra abençoar meu blog.  ;D

ps. A morte ensina! E muito!

 

clones?

Na véspera do Dia das Mães, sentei com a minha genitora para assistir ao Concurso de Miss Brasil 2010. Modéstia a parte, mamãe daria uma ótima comentarista nestas competições de beleza. Mas não atualmente. O seu conhecimento sobre os concursos data das décadas de 60 e 70, época em que cada mulher candidata era única: única de cara, única de corpo, única de expressão.

Ontem, enquanto desfrutávamos daquele desbunde de mulheres pomposas, vimos repetir um modelo de concurso de beleza que não mais desperta a atenção de diferentes torcidas… Na verdade, se você tomar o cuidado de colocar a sua televisão no mute e tentar reconhecer a sua preferida ali no meio (sem julgar pela faixa com o nome do Estado), dificilmente irá acertar. E a razão para que isso aconteça é muito simples: nos últimos anos, existe um padrão “Natália Guimarães” de ser. Desde de que a linda morena nomeada como Miss Brasil 2007 acenou para as câmeras, a alta cúpula do Concurso tratou de providenciar 80% de seus clones para ocuparem os postos de candidatas à representante oficial da beleza brasileira. Ou pelo menos é o que parece…

Se você se questiona aí do outro lado da tela se eu sou mais uma pobre mulher invejosa, acalme seus ânimos. Não sou nenhuma desdentada mal amada, pelo contrário – e sem nenhuma modéstia. Mas, acima de tudo, sou sim uma admiradora e defensora da beleza da mulher brasileira. Ou melhor: da beleza natural da mulher brasileira. E é por isso que ainda me sinto confusa ao assistir aos Concursos atuais. As pernas são as mesmas pernas finas e sem grandes contornos. Os quadris têm a mesma medida. Os bustos têm os mesmíssimos formatos e mililitros. O nariz, ai o nariz… Provavelmente são obras do mesmo Doctor Hollywood. E o mesmo vale para os cabelos pintados no mesmo tom, secos com o mesmo volume, feitos no mesmo molde de babyliss. Salvo as raras exceções, que assumiram seus cabelos frisados e seus narizes de batata – puramente maravilhosos – as nossas misses são todas Natálias.

Em meio a tanta mesmisse, vale ressaltar que sim, houve mudanças no show. Não fosse pelo excesso de publicidade que impacta o telespectador, na tentativa de competir com o brilho do sexo frágil ali exposto – necessária para a sobrevivência desta apresentação na única emissora que ainda se presta à atividade – assistir ao Concurso seria como reprisar continuamente o mesmo filme. As exigências pra se subir ao palco atualmente também foram “enriquecidas”, por assim dizer… Agora, por exemplo, as candidatas são todas jovens universitárias, futuras advogadas e administradoras em sua maioria. Elas também falam um português muito mais correto que o do Presidente da República Federativa que almejam representar (coisa lá não muito admirável).

Mas, por mais que tentem desvirtuar nossa atenção para estas características “cults”, a razão fundamental para aquelas meninas-mulheres estarem ali não são essas. E não precisa ser gênio pra saber disso! Elas estão ali prioritariamente pela sua beleza, dispostas a exibirem graciosamente suas dádivas físicas. E, infelizmente, pelo padrão que se estabeleceu como ideal, a magnitude do Miss Brasil perdeu o brilho, virou insossa…

E é aí que me pergunto: onde foram parar as Sandras, Leilas, Kátias e Marias? As misses da época de mamãe, que eram únicas nos seus cabelos com fios fora de lugar, maquiagens de filhotes de travesti, donas de corpos acinturados, com barriguinhas salientes e bumbuns sexys? Sinto falta, mesmo sem ter assistido em tempo real, das tímidas celulites destas memoráveis mulheres. Mulheres naturalmente misses. Ou misses naturalmente mulheres, como preferir.

Obs. Se você ainda dúvida deste texto, acesse o site oficial do Concurso Miss Brasil, pesquise pela história da competição, observando as fotos das vencedoras desde 1954… Agora me diga, a diversidade não falava mais alto?!
(eu te ajudo, ó!)

pari esse texto em 9 de maio de 2010