trilha sonora para a leitura: Kings and Queens, 30 Seconds To Mars. 

 

Chega numa altura da vida em que a gente tem de decidir. E tem muito pimpolho, que em coisa de 2 ou 3 dias de idade, vê o seu destino timbrado numa peça de roupa. Se o pai não estava trajado de torcedor desde a hora do nascimento, alguém na rua usava uma do Corinthians ou do Flamengo, já no caminho entre maternidade e casa. Era o empurrão. E você nem sabia.

Daí, quando o ato de ficar em pé não é mais um grande desafio da gravidade, apesar de ainda usar fraldas, algum marmanjo vai lhe propor sua primeira peneira. Processo simples: rola-se uma gigante coisa redonda em sua direção e espera-se para ver a desenvoltura dos seus pezinhos. O par, ainda sem tamanho pra competir sequer com um gomo daquilo, rebaterá com uma qualidade que só um avô/tio/irmão com visão raio coruja é capaz de enxergar. E toda aquela gente grande e com cabelo curto que estava ao redor do feito, traçará, ali, o seu futuro profissional. Atacante, meia, lateral, volante, goleiro, canhoto… Pobre deles. Nem imaginam que no fundo você só foi se defender.

Foi um reflexo, não um chute, meus caros! Alguma mulher ao redor alertaria. Como se adiantasse. 

Até a festinha de 4 anos, você acompanha a cidade virar um antro de variações das cores verde e amarelo. É a tal Copa do Mundo, casa cheia, TV ligada. E aí sim: ser jogador é totalmente excelente! Todo mundo grita seu nome, pede o seu lance, xinga seu adversário. E quando a rede balança, todo mundo vira todo mundo mesmo. Todas as janelas vizinhas, todas as cabeças pra fora e todas as bandeiras sendo sacudidas. Em tempos modernos, todas as vuvuzelas esperneariam! Sua meta de vida, nessa hora, passa a ser a disputa por uma vitória vestindo a camisa da seleça.

A paixão é certa e a escolinha de futebol também. Você ganha um professor fora da sala de aula, um monte de coleguinhas hiperativos e um novo tipo de recreio, obrigatório na semana (e bacana por assim ser). Campeonatinhos vêm e família, vizinho e papagaio vão, para a arquibancada, como torcida. Mas a maioria ali age como parte da comissão técnica.

 A bola não assusta mais, virou melhor amiga. E você? Virou promessa! A promessa do futuro próspero, do sucesso, do dinheiro e do comentário do Galvão Bueno. As espinhas invadiram sua cara e o pessoal passou a te disputar nas equipes de campeonato do colégio. Te deram faixa de Capitão, ora ora. O sonho dá uma encorpada, você elege um grande exemplo de craque, provavelmente jogando no Milan, e entra na base de algum timéco. Uma nova qualidade, perceptível a qualquer pessoa próxima, e ainda sem nenhum sinônimo na língua portuguesa, passa a te rondar. Boleiragem. O incentivo mais atraente pra tanta? Fãs de saia, que num futuro próximo ganhariam outro apelido (derivado).

O tempo passa, a responsa bate e a família pesa, Homenzinho. A maioria dos seus amigos abre mão, vai ralar num escritório, quer badalar nos finais de semana ou estuda jornalismo, na tentativa de virar estrela do Globo Esporte. Mas você não. Até hoje, é refém dela. A bola passou de coisa esquisita, redonda e grandalhona, a melhor amiga e, agora, ladra. Roubou a vida perto da família, a alegria das noites mal dormidas, o sabor do feijão de casa e o afago da namorada. Mas ela ainda te seduz com o poder insuportável do viver do sonho. Do ser fiel a toda essa sociedade que um dia te idolatrou, depois te desacreditou e agora até dá uma agoradinha (de leve). Ela abusou da sua necessidade de provar que ainda dá tempo. E te provoca com toda a graça declarada das boleironas de plantão, que trocaram a saia pelo silicone parcelado e pelo cabelo loiro tingido.

Quando você era cotoco ninguém te disse que profissional acorda às 6h da matina pra correr feito o papa léguas e pra enfrentar a inveja dos seus únicos próximos, conhecidos como time, equipe. Ninguém te disse que você não iria comer carne de primeira todo dia e que, ainda assim, teria que monitorar a balança. Ninguém te disse que você viveria sob uma pressão psicológica infernal e que uma máfia corrói (também) esse sistema. Nem que assinar um novo contrato não é garantia de salário em dia ou que vencer uma partida é só a primeira gota de suor para a próxima batalha, que começa no dia seguinte, debaixo de sol, num treino físico de arrebentar qualquer ligamento. Ah, alguém avisou que a imprensa de Piraporinha do Bom Jesus iria te devorar?

Não os culpe. Eles, que não te disseram, provavelmente não sabiam. Passaram pra você a frustração própria, propaganda enganosa de vida glamorosa – que ainda acreditam existir. Mas hoje também não sabem que entrar no campo e ouvir torcedores é mágico e que suar num jogo que vale pontos, num campeonato sem aposentados perna de pau, é como varrer um monte de problemas pra baixo do tapete. Muito menos que transformar uma faísca de esperança em projeto de vida é comprar uma briga consigo próprio.

Percebe agora? O papel principal da bola não era te fazer vestir camisa, meião e chuteira pra posar na foto. Era roubar o que tinha por baixo de tudo isso: seus sonhos. Ela quis protagonizar, virar objetivo primordial. Conseguiu, fera. Fez de Deus o seu maior ombro amigo e da solidão a sua maior escola.

Lá, no começo, só te rolaram a bola… A culpa não é deles, é dela.