clones?

Na véspera do Dia das Mães, sentei com a minha genitora para assistir ao Concurso de Miss Brasil 2010. Modéstia a parte, mamãe daria uma ótima comentarista nestas competições de beleza. Mas não atualmente. O seu conhecimento sobre os concursos data das décadas de 60 e 70, época em que cada mulher candidata era única: única de cara, única de corpo, única de expressão.

Ontem, enquanto desfrutávamos daquele desbunde de mulheres pomposas, vimos repetir um modelo de concurso de beleza que não mais desperta a atenção de diferentes torcidas… Na verdade, se você tomar o cuidado de colocar a sua televisão no mute e tentar reconhecer a sua preferida ali no meio (sem julgar pela faixa com o nome do Estado), dificilmente irá acertar. E a razão para que isso aconteça é muito simples: nos últimos anos, existe um padrão “Natália Guimarães” de ser. Desde de que a linda morena nomeada como Miss Brasil 2007 acenou para as câmeras, a alta cúpula do Concurso tratou de providenciar 80% de seus clones para ocuparem os postos de candidatas à representante oficial da beleza brasileira. Ou pelo menos é o que parece…

Se você se questiona aí do outro lado da tela se eu sou mais uma pobre mulher invejosa, acalme seus ânimos. Não sou nenhuma desdentada mal amada, pelo contrário – e sem nenhuma modéstia. Mas, acima de tudo, sou sim uma admiradora e defensora da beleza da mulher brasileira. Ou melhor: da beleza natural da mulher brasileira. E é por isso que ainda me sinto confusa ao assistir aos Concursos atuais. As pernas são as mesmas pernas finas e sem grandes contornos. Os quadris têm a mesma medida. Os bustos têm os mesmíssimos formatos e mililitros. O nariz, ai o nariz… Provavelmente são obras do mesmo Doctor Hollywood. E o mesmo vale para os cabelos pintados no mesmo tom, secos com o mesmo volume, feitos no mesmo molde de babyliss. Salvo as raras exceções, que assumiram seus cabelos frisados e seus narizes de batata – puramente maravilhosos – as nossas misses são todas Natálias.

Em meio a tanta mesmisse, vale ressaltar que sim, houve mudanças no show. Não fosse pelo excesso de publicidade que impacta o telespectador, na tentativa de competir com o brilho do sexo frágil ali exposto – necessária para a sobrevivência desta apresentação na única emissora que ainda se presta à atividade – assistir ao Concurso seria como reprisar continuamente o mesmo filme. As exigências pra se subir ao palco atualmente também foram “enriquecidas”, por assim dizer… Agora, por exemplo, as candidatas são todas jovens universitárias, futuras advogadas e administradoras em sua maioria. Elas também falam um português muito mais correto que o do Presidente da República Federativa que almejam representar (coisa lá não muito admirável).

Mas, por mais que tentem desvirtuar nossa atenção para estas características “cults”, a razão fundamental para aquelas meninas-mulheres estarem ali não são essas. E não precisa ser gênio pra saber disso! Elas estão ali prioritariamente pela sua beleza, dispostas a exibirem graciosamente suas dádivas físicas. E, infelizmente, pelo padrão que se estabeleceu como ideal, a magnitude do Miss Brasil perdeu o brilho, virou insossa…

E é aí que me pergunto: onde foram parar as Sandras, Leilas, Kátias e Marias? As misses da época de mamãe, que eram únicas nos seus cabelos com fios fora de lugar, maquiagens de filhotes de travesti, donas de corpos acinturados, com barriguinhas salientes e bumbuns sexys? Sinto falta, mesmo sem ter assistido em tempo real, das tímidas celulites destas memoráveis mulheres. Mulheres naturalmente misses. Ou misses naturalmente mulheres, como preferir.

Obs. Se você ainda dúvida deste texto, acesse o site oficial do Concurso Miss Brasil, pesquise pela história da competição, observando as fotos das vencedoras desde 1954… Agora me diga, a diversidade não falava mais alto?!
(eu te ajudo, ó!)

pari esse texto em 9 de maio de 2010