Cresci ouvindo nego dizer “O Brasil é ótimo… Aqui não tem terremoto, furacão ou guerra”. Também ouvi bastante, em um ritmo mais encantador, que tudo o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar. Mas, como só depois fui entender que era a Xuxa quem me dava essa dica (a segunda), passei a desconfiar de todas as outras teorias (inclusive da primeira).

Tal pé atrás – atrelado a um quê de frustração – me fez mais curiosa, ao ponto de querer entender o que determinava um país sofrer tremor de terra, tufo de vento do cão e, claro, sofrer da guerra. Placas tectônicas, ondas sísmicas, escalas Richter, tempestades e ciclones depois… continuo ignorante com relação à guerra. Achava que era ganância oropéia, síndrome de Bush ou coisa de terrorista barbudo. Não é.

Terra brasílis é muito grande. Muito desigual também. Exige que nordestino abandone a rede de descanso no sertão ou o lindo barquinho de pescador pra vir morar perto de uma praia chic, com internet wi fi na orla da cidade (?). Ele chega confuso, sem ter onde dormir, o que colher ou como pescar. Aflito, descobre que até dá pra construir um barracozinho num lugar alto com vista panorâmica (!). Mas ao mesmo tempo em que arruma um bico 100% urbano, descobre que muita gente usa um negócio chamado “entorpecente”. O filho do patrão fuma maconha, a moça da TV cheira cocaína e quem vende tudo isso pra eles é o seu vizinho.

Desde semana passada vejo tanques de guerra entrando lá perto desse pessoal minoria, que veio tentar a vida na cidade grande que era pra ser maravilhosa. Agora eles devem estar pedindo pro cara lá de cima dar, de volta, a sua terra natal, a sua casa de barro e os seus vizinhos drogados de tanta cachaça de alambique e cigarro de palha… Querem ouvir forró e não mais ‘tá dominado, tá tudo dominado’ da boca de homens fardados.

Talvez eles, assim como eu quando pequena, pensavam que “ocupação de território”, “domínio” e “poder” eram palavras pra estrangeiro ou professor de história usar. E que guerra era algum tipo de questão múltipla escolha em que a gente é quem decide se marca com um x a opção ter ou a opção não ter. Por mais que eu ainda idealize que sim, é opcional (pena que quem preenche por aqui não sabe como fazê-lo), concluo que o mais chocante é saber que estamos em guerra contra nós mesmos e, dizem, a favor de nós mesmos. Os principais inimigos não estão em outro país, nem falam outra língua. São, no máximo, de facções, milícias ou partidos diferentes.

Você pensou que, algum dia, Hitler e Morro do Alemão teriam coincidências além do nome? Nem eu.  Muito menos os pacíficos retirantes…