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Sábado, 10h30 da manhã. Eu, decidida a reparar o erro de não ter feito a primeira revisão no meu carro – já com 22 mil quilômetros – fui ao posto de gasolina trocar o óleo, o filtro do óleo e mais meia dúzia de itens automobilísticos que o frentista me vendeu como essenciais. “Olha dona, não sei como você ainda conseguia ligar o motor!”, disse ele como quem vende a mãe zero km a preço de fábrica. “Tá bom, mas vê se não me quebra porque eu sou pobre…”, rebati do alto do meu cabelo loiro e da minha bolsa rosa, com os pés fincados no metro quadrado mais caro da cidade, na ingênua intenção de ludibriar aquele homem que exercia sobre mim uma visível (quiça risível) superioridade.

Bem, resignada a esperar as cercas de uma hora e meia de cirurgia no meu possante – depois do que gastei, é melhor valorizá-lo -, sentei para tomar um cafezinho, acompanhado de uma água com gás e um Estadão fresquinho com as novidades mundiais. Cansada da crise da Grécia, do trocadilho Jobim-Amorim-Amorim-Jobim, e dos colunistas desgraçando Obama, entrei na loja de conveniência e me rendi à prateleira de revistas. A Elle me chamou, a Lola me seduziu… Tirei a Veja da estante e dei uma analisada no teor da capa, fazendo a sábia consumidora de informação. Mas logo me vi frente às chatas especulações do jornal que havia abandonado há pouco, e decidi me permitir: “Hoje é sábado, Amanda”, disse pra mim mesma em voz baixa, como se realmente precisasse me convencer desse teatral monólogo. E rapidamente agarrei a minha primeira Playboy. Digo ‘a minha primeira’ porque pela primeira vez os meus tostões suados iriam pagar para ver aquelas páginas.

A edição que agora eu entregava para a Caixa do lugar, com uma serena curiosidade para observar a sua reação ao ver a menininha comprando a revista de mulher pelada, é digna de curiosidade. Adriane Galisteu, nos seus quase 40, estrela o ensaio principal. Bem abaixo dos seus seios, na capa de logo dourado, tem a chamada “ENTREVISTA SANDY: É possível ter prazer anal”. Um apelativo convite para os Genaros que um dia cantaram e acreditaram que a Maria Chiquinha precisava cortar lenha no meio do mato…

– Inclusive para a caixa que havia passado a minha compra, que depois do espanto, confessa, pediu para eu lhe contar sobre a entrevista (e sobre o poder que o dinheiro exerceu sobre o shape da Galisteu depois da gravidez). –

Eu tenho hoje 23 anos. Sou da época em que o Sandy e a Junior – um salve aqueles que nunca souberam ao certo quem era o menino e quem era a menina da dupla – cantavam “Vamo pulá!” na Rede Glóbulo nos almoços de domingo. Minha geração já duvidava, mesmo adorando o contexto Malhação do seriado, de que a adolescente de voz inegavelmente promissora, filha dos sertanejos mais representativos do Brasil – além da distinção de sexo, quem é que nunca falou que ela era filha do Chitãozinho e do Xororó, como se eles fossem um casal? -, iria casar virgem, como se explorou durante anos. Faço parte da massa crítica (risos) que um dia falou a respeito da sua pureza exacerbada, nessas conversas que nos levam tão longe que depois é preciso ponderar o tempo perdido (cof, cof).

Enquanto eu lia atentamente a uma entrevista de gente comportada, pra não dizer chata, e o querido frentista tentava justificar cada acréscimo de 60 reais que ele fazia na minha conta, mostrando superfícies cinzas em comparação às branquinhas novas que ele iria instalar – “… A senhora tava respirando sujeira pura com esse filtro de ar condicionado, viu?” – e eu abanava com a cabeça, subordinada ao preço dos seus sermões, refleti. Afinal, de que me interessava o cu da Sandy?

A chamada de capa que já havia causado comentários fervorosos no happy hour da firma, que dominou a página do meu facebook por uns três dias, carregava um prazer quase mórbido… E pior, na verdade era enganosa. Eu estava lendo uma entrevista de cinco páginas de uma cantora, que ali não falava de música, nem de inspirações, nem de bastidores, mas só tentava me convencer de que era uma mulher bem resolvida sexualmente, sem revelar pitacos além da sua coleção de lingeries preta (uau!). Ainda assim, eu aumentava a velocidade da leitura a cada resposta rasa da entrevistada, sedenta por alguma fútil emoção. E acabei me divertindo mais com a desenvoltura engraçadinha e necessariamente cara de pau da sua entrevistadora.

A chamada de capa –como eu já devia esperar – tinha a intenção de botar na boca (e não só lá) da Sandy uma revelação que ela não fez. A imprensa no seu papel (?). Eu, consumidora ocasional e maria vai com as tendências, também cumpria, de certa forma, com o meu ao atender aos anseios daqueles que planejaram a composição “ENTREVISTA SANDY: É possível ter prazer anal”. O cu da Sandy? Continuava intacto para qualquer um que não o seu digníssimo – se é que ele o conhece da forma como foi insinuado.

Enfim, Sandy está cada vez mais cabeçuda (falo com propriedade a respeito), mais magrinha, mais certinha, mais sem gracinha. Sandy não bebe cerveja e não gosta de ficar bêbada porque não se sente bem perdendo o controle. ZzZzZZZZZZ.

A Playboy vale pelas sacadas, contos, e pelo corpo elegante da Galisteu, segundo as lentes de Duran, na paisagem do Sul da Itália. A naturalidade exibicionista com que ela, literalmente, abre as loiras e maduras pernas, qualidade que talvez o Senna não tenha tido a oportunidade de conhecer, essas sim, cabem como vantagens exclusivas dessa edição da querida Revista. Pelo menos foi isso que consolou os quase 400 reais que Joseílson, o frentista do mês da Petrobrás, me cobrou pelos serviços prestados. “Da próxima vez, troca o óleo com a gente, ein dona?!”. Pode deixar, Joseílson, você me rendeu muito mais do que a Sandy.

meu texto na home do papodehomem.com... muito amor!

 

Em meados de março, um moço muito bacanudo me mandou uma mensagem no twitter perguntando se eu gostaria de escrever para um dos sites brasileiros mais bacanudos da atualidade. O bacanudo 1 é Guilherme Valadares, criador e editor do bacanudo 2, o Papodehomem, uma lifestyle magazine feita pra gente com pauderescência.

Fiquei lisongeada com o convite e aproveitei a passadinha que tinha dado naqueles dias pela RedeTV, pra contar o que  vi por trás das câmeras do programa da Hebe. Sim, decidi contar para homens saco-roxo – como eles costumam se tratar por aquelas bandas – detalhes em off sobre a titia Hebe. Arrisquei, ‘graciiinhas’.

Adianto! Leitura recomendada para os desprovidos de preconceitos e, principalmente, pra quem tem essa visão meio romântica, meio feliz, meio boba da vida (como eu) e costuma pensar que dá pra aprender com tudo. Até com a Hebe…   

Pra ler é só clicar aqui, ó: http://papodehomem.com.br/hebe-com-h-maiusculo/

 

ilustração da talentosa e querida Julia Lima (www.jlima.net)

 

Nos últimos cinco dias tive palestras com os grandes diretores, editores e repórteres da maior Editora da América Latina, a Abril. Durante o Curso Abril de Jornalismo 2011 fiz perguntas polêmicas para os caras da Veja, conheci a estratégia do site de maior referência econômica para executivos, o da Revista Exame, ouvi sobre os desafios tecnológicos mais recentes no universo das publicações (como, por exemplo, driblar ou se inserir no iPad?), e entendi que as diferentes gerações de mulheres do nosso tempo geram um conteúdo super fatiado, que contribui para o boom de revistas femininas lançadas recentemente… Ufa! Mas entre essas e tantas outras informações bacanérrimas, ouvi ontem o relato mais interessante de todos.

Edson Aran é o chefão da Playboy Brasil, que diga-se de passagem é a mais bem sucedida revista entre as 24 outras representantes da marca que estão soltas pelo mundo. Provavelmente é também a que faz do Sr. Hugh Hefner, o inteligente barão do nudismo mundial, um cara mais orgulhoso. Pois bem. Entre questionamentos sobre o uso do photoshop naquelas curvas e sobre a negociação das capas mais polêmicas desta Revista, minha cabeça insistia em querer saber duas coisas… Entre as Playboys mais vendidas, expostas nos slides deste Diretor de Redação, estavam as loiras e morenas mais deliciosas deste país – aquelas que muitos de vocês, caros menininhos, se inspiraram para colar algumas páginas. Mas entre estas sex symbols não estavam mulheres negras. Também não estrelavam, nas edições mais recentes, os seios pequenos.

E ali na minha frente estava o cara mais por dentro dos bastidores da Playboy, que conhece melhor do que ninguém o consumidor desta informação nua. E então, eu lhe perguntei: “afinal, mulheres negras na capa agradam o seu leitor? Os seios pequenos, daquelas que não são tão famosas, geram tesão no seu leitor?”. E a reposta para ambas foi bem simples: não. Mulheres negras e peitos sequinhos não vendem menos Playboys.

A pulguinha atrás da minha orelha persistia: se essas características não rendiam menos, porque os cenários das negras é tão limitado na história da Revista? Desde 1975, entre as que eu consegui contar, há míseras três capas negras… E porque apenas os seios com os mesmos mililitros ganham cada vez mais estas páginas? Edson me explicou. Há poucas mulheres negras em destaque no mercado do entretenimento e, para aparecer na Playboy não basta ser gostosa, tem que ser pop. Quanto aos peitinhos, atenção mulherada: “Não são os homens que querem as mulheres peitudas, elas é que estão assim”, ele disse. E disse mais: “Na nossa última edição há uma foto com quatro mulheres peladas, uma ao lado da outra. Todos os seios são iguais. Isso não é legal…”.

Ai, como eu quero que o Edson esteja certo! Rapazes que se masturbam e homens que se entregaram aos prazeres do capitalismo (até porque aqui as mulheres são parte deles): espero que vocês estejam ansiosos para ver a Jaqueline Faria, aquele desbunde negro do BBB11, de rosto simétrico, corpo de passista e sotaque carioca, na capa da Playboy. Aliás, Aguinaldo Silva, traga mais cor para a telinha e dê uma forcinha para o nosso amigo Edson desmistificar essa coisa toda… Pois eu posso dar nomes aos homens que dizem que as mulheres negras são atraentes, mas que não as “pegariam” (na linguagem mais livre e verdadeira possível).

Ah! Eu sei, mas não vou dar. Os nomes destes caras, mentes estimuladas.  

Espero também, amigas na ânsia por se jogar na mesa cirúrgica para embolotar sua comissão de frente, que vocês o façam caso isso sirva para te fazer se sentir ainda mais linda, para lhe fazer vestir melhor aquela blusa decotada, tamanho M, sem que sobre tecido na parte da frente. E não apenas para aumentar o número do sutiã que os do sexo oposto vão arrancar com os dentes depois de uma(s) taça(s) de vinho. Eles gostam das nossas muxibinhas! Palavras de um especialista.

Ps. Não se sinta agredida caso a felicidade tenha invadido sua vida depois do silicone, como já ouvi de tantos relatos. A opinião aqui vem de uma pessoa de retaguarda, talvez uma jovem de alma velha que – ainda, oras – dispensa a importação dos peitos americanos e se sente suficiente com aquilo que um dia foi chamado de preferência nacional. Uma vantagem de ser assim? Na busca constante do ser humano por exclusividade, posso ao menos dizer: meu peito é tímido, charmoso e único em seu formato.

(Edson Aran, olha eu aí! rs)

Cresci ouvindo nego dizer “O Brasil é ótimo… Aqui não tem terremoto, furacão ou guerra”. Também ouvi bastante, em um ritmo mais encantador, que tudo o que eu quiser o cara lá de cima vai me dar. Mas, como só depois fui entender que era a Xuxa quem me dava essa dica (a segunda), passei a desconfiar de todas as outras teorias (inclusive da primeira).

Tal pé atrás – atrelado a um quê de frustração – me fez mais curiosa, ao ponto de querer entender o que determinava um país sofrer tremor de terra, tufo de vento do cão e, claro, sofrer da guerra. Placas tectônicas, ondas sísmicas, escalas Richter, tempestades e ciclones depois… continuo ignorante com relação à guerra. Achava que era ganância oropéia, síndrome de Bush ou coisa de terrorista barbudo. Não é.

Terra brasílis é muito grande. Muito desigual também. Exige que nordestino abandone a rede de descanso no sertão ou o lindo barquinho de pescador pra vir morar perto de uma praia chic, com internet wi fi na orla da cidade (?). Ele chega confuso, sem ter onde dormir, o que colher ou como pescar. Aflito, descobre que até dá pra construir um barracozinho num lugar alto com vista panorâmica (!). Mas ao mesmo tempo em que arruma um bico 100% urbano, descobre que muita gente usa um negócio chamado “entorpecente”. O filho do patrão fuma maconha, a moça da TV cheira cocaína e quem vende tudo isso pra eles é o seu vizinho.

Desde semana passada vejo tanques de guerra entrando lá perto desse pessoal minoria, que veio tentar a vida na cidade grande que era pra ser maravilhosa. Agora eles devem estar pedindo pro cara lá de cima dar, de volta, a sua terra natal, a sua casa de barro e os seus vizinhos drogados de tanta cachaça de alambique e cigarro de palha… Querem ouvir forró e não mais ‘tá dominado, tá tudo dominado’ da boca de homens fardados.

Talvez eles, assim como eu quando pequena, pensavam que “ocupação de território”, “domínio” e “poder” eram palavras pra estrangeiro ou professor de história usar. E que guerra era algum tipo de questão múltipla escolha em que a gente é quem decide se marca com um x a opção ter ou a opção não ter. Por mais que eu ainda idealize que sim, é opcional (pena que quem preenche por aqui não sabe como fazê-lo), concluo que o mais chocante é saber que estamos em guerra contra nós mesmos e, dizem, a favor de nós mesmos. Os principais inimigos não estão em outro país, nem falam outra língua. São, no máximo, de facções, milícias ou partidos diferentes.

Você pensou que, algum dia, Hitler e Morro do Alemão teriam coincidências além do nome? Nem eu.  Muito menos os pacíficos retirantes…

 

trilha sonora para a leitura: Kings and Queens, 30 Seconds To Mars. 

 

Chega numa altura da vida em que a gente tem de decidir. E tem muito pimpolho, que em coisa de 2 ou 3 dias de idade, vê o seu destino timbrado numa peça de roupa. Se o pai não estava trajado de torcedor desde a hora do nascimento, alguém na rua usava uma do Corinthians ou do Flamengo, já no caminho entre maternidade e casa. Era o empurrão. E você nem sabia.

Daí, quando o ato de ficar em pé não é mais um grande desafio da gravidade, apesar de ainda usar fraldas, algum marmanjo vai lhe propor sua primeira peneira. Processo simples: rola-se uma gigante coisa redonda em sua direção e espera-se para ver a desenvoltura dos seus pezinhos. O par, ainda sem tamanho pra competir sequer com um gomo daquilo, rebaterá com uma qualidade que só um avô/tio/irmão com visão raio coruja é capaz de enxergar. E toda aquela gente grande e com cabelo curto que estava ao redor do feito, traçará, ali, o seu futuro profissional. Atacante, meia, lateral, volante, goleiro, canhoto… Pobre deles. Nem imaginam que no fundo você só foi se defender.

Foi um reflexo, não um chute, meus caros! Alguma mulher ao redor alertaria. Como se adiantasse. 

Até a festinha de 4 anos, você acompanha a cidade virar um antro de variações das cores verde e amarelo. É a tal Copa do Mundo, casa cheia, TV ligada. E aí sim: ser jogador é totalmente excelente! Todo mundo grita seu nome, pede o seu lance, xinga seu adversário. E quando a rede balança, todo mundo vira todo mundo mesmo. Todas as janelas vizinhas, todas as cabeças pra fora e todas as bandeiras sendo sacudidas. Em tempos modernos, todas as vuvuzelas esperneariam! Sua meta de vida, nessa hora, passa a ser a disputa por uma vitória vestindo a camisa da seleça.

A paixão é certa e a escolinha de futebol também. Você ganha um professor fora da sala de aula, um monte de coleguinhas hiperativos e um novo tipo de recreio, obrigatório na semana (e bacana por assim ser). Campeonatinhos vêm e família, vizinho e papagaio vão, para a arquibancada, como torcida. Mas a maioria ali age como parte da comissão técnica.

 A bola não assusta mais, virou melhor amiga. E você? Virou promessa! A promessa do futuro próspero, do sucesso, do dinheiro e do comentário do Galvão Bueno. As espinhas invadiram sua cara e o pessoal passou a te disputar nas equipes de campeonato do colégio. Te deram faixa de Capitão, ora ora. O sonho dá uma encorpada, você elege um grande exemplo de craque, provavelmente jogando no Milan, e entra na base de algum timéco. Uma nova qualidade, perceptível a qualquer pessoa próxima, e ainda sem nenhum sinônimo na língua portuguesa, passa a te rondar. Boleiragem. O incentivo mais atraente pra tanta? Fãs de saia, que num futuro próximo ganhariam outro apelido (derivado).

O tempo passa, a responsa bate e a família pesa, Homenzinho. A maioria dos seus amigos abre mão, vai ralar num escritório, quer badalar nos finais de semana ou estuda jornalismo, na tentativa de virar estrela do Globo Esporte. Mas você não. Até hoje, é refém dela. A bola passou de coisa esquisita, redonda e grandalhona, a melhor amiga e, agora, ladra. Roubou a vida perto da família, a alegria das noites mal dormidas, o sabor do feijão de casa e o afago da namorada. Mas ela ainda te seduz com o poder insuportável do viver do sonho. Do ser fiel a toda essa sociedade que um dia te idolatrou, depois te desacreditou e agora até dá uma agoradinha (de leve). Ela abusou da sua necessidade de provar que ainda dá tempo. E te provoca com toda a graça declarada das boleironas de plantão, que trocaram a saia pelo silicone parcelado e pelo cabelo loiro tingido.

Quando você era cotoco ninguém te disse que profissional acorda às 6h da matina pra correr feito o papa léguas e pra enfrentar a inveja dos seus únicos próximos, conhecidos como time, equipe. Ninguém te disse que você não iria comer carne de primeira todo dia e que, ainda assim, teria que monitorar a balança. Ninguém te disse que você viveria sob uma pressão psicológica infernal e que uma máfia corrói (também) esse sistema. Nem que assinar um novo contrato não é garantia de salário em dia ou que vencer uma partida é só a primeira gota de suor para a próxima batalha, que começa no dia seguinte, debaixo de sol, num treino físico de arrebentar qualquer ligamento. Ah, alguém avisou que a imprensa de Piraporinha do Bom Jesus iria te devorar?

Não os culpe. Eles, que não te disseram, provavelmente não sabiam. Passaram pra você a frustração própria, propaganda enganosa de vida glamorosa – que ainda acreditam existir. Mas hoje também não sabem que entrar no campo e ouvir torcedores é mágico e que suar num jogo que vale pontos, num campeonato sem aposentados perna de pau, é como varrer um monte de problemas pra baixo do tapete. Muito menos que transformar uma faísca de esperança em projeto de vida é comprar uma briga consigo próprio.

Percebe agora? O papel principal da bola não era te fazer vestir camisa, meião e chuteira pra posar na foto. Era roubar o que tinha por baixo de tudo isso: seus sonhos. Ela quis protagonizar, virar objetivo primordial. Conseguiu, fera. Fez de Deus o seu maior ombro amigo e da solidão a sua maior escola.

Lá, no começo, só te rolaram a bola… A culpa não é deles, é dela.

a fórmula perfeita pro mocinho de catiguria

Certa vez eu estava em Las Vegas, com uma amiga, numa festa de dia na piscina de um cassino – pense em loiras peitudas com biquínis fluorescentes e gigantes na bunda como 80% do público. A black music tomava conta, ao lado das consagradas músicas eletrônicas. Mas uma hora o DJ surpreendeu. Talvez a nossa parte de baixo (minha e da minha amiga) declarasse que nós não éramos “made in USA” e ele foi bacana, tentou nos agradar. Talvez não. O fato é que as caixas de som, entre uma música do Snoop Dog e outra do Usher, soltaram um tal de PARAPAPAPAPAPAPAPAPA PARAPAPAPAPAPAPAPA PAPARA PAPARA PAPARA CLACK BUM! A batida de funk foi suficiente pra que nós trocássemos olhares felizes e, se bobear, até simulamos uma metralha nas mãos pra dançar… Avoadas, né? Não. Era como um grito naquele cenário de clipe americano de que: “ei, nós somos brasileiras!”. Difícil explicar essa sensação de orgulho, ainda mais tendo a letra do “Rap das Armas” como pivô. Os hipócritas que me perdoem, mas é bem semelhante ao que acontece na sequência de Tropa de Elite.    

Numa das experiências mais aguardadas pro mês de outubro (ir assistir ao longa) identifiquei, de novo, essa força da música certeira. O filme começa com a pegada certa, porque traz o funk perfeito. Você vê gente se sacudindo nas cadeiras ou só balançando os pés, ritmados pela expectativa de assistir aquela mistura meio doida, agressiva, 50% ladrão, 50% policia. Entendo esse efeito como o reflexo mais puro da massa brasileira dos últimos anos: revoltada com a violência, sensibilizada com a realidade, carente de proteção, explorada pelos sensacionalistas e estapeada com a cena política. Mas ainda assim, com um verde e amarelo fincados no peito. E Padilha reuniu tudo isso: nossos defeitos, verdades e patriotismo insistente. Dá pra entender as reações do público que assiste a saga, se revezando na identificação entre o favelado e o burguês, com a mesma vontade que Capitão Nascimento, agora Coronel, tenta assumir o comando justiceiro dentro da Secretaria de Segurança do Rio.

A trama se desenrola de um jeito sanguinário, mas com mais raciocínio que a primeira versão. É um filme pra homem e pra mulher. E com razões de berço, a começar pelos homens. Qualquer um daqueles ali já brincou de bandido e mocinho, já foi sedento pra segurar numa pistola (sem duplo sentido, meus caros) e ter a sensação de poder que o protagonista exibe. A maioria ali também se diz fiel aos parceiros (vulgo amigos) e todos já brincaram de super herói. Arrisco dizer que alguns sofrem até hoje dessa síndrome…

Mulheres, vamos lá. Ele tem olheiras, papo, testa grande, cabelos grisalhos (não do tipo William Bonner glamoroso – do tipo descuidado mesmo), fala grosso, de meia dúzia das suas palavras cinco são palavrões, prioriza o trabalho à família e ainda é mal humorado. Mercenárias, nem grana ele tem. Ah! Ele não é alto e anda esquisito. Mas ainda assim arranca nossos suspiros. E eu lhe pergunto: por que tanto alvoroço?! Tento responder: Roberto Nascimento é a personagem amadurecida do olho que tudo vê, do homem estratégia, do cara que te oferece proteção. A ex mulher vê ele chorar e não mexe um dedo pra lhe fazer um cafuné… Doeu em você também? Tá pra nascer sex simbol maior que esse.

Não me surpreende, ainda, que o filme não ganhe prêmios internacionais. Antes de ser pra homem ou pra mulher, é um filme pra brasileiro entender. Oportuno, vem em época de eleição, de corrupção, de nervos a flor da pele (e não à toa você ouve gente dizendo estar arrepiada quando sai da sala de cinema). O slogan diz: “o inimigo agora é outro”, mas a cada dia que passa, percebemos que o inimigo sempre foi o mesmo.

Com uma reflexão meio patológica, deixei o filme satisfeita e assustada. Não era pra gostar: mudo de canal nos filmes de ação, crime e simpatizantes. Prefiro ser amornada numa comedia romântica de quinta, ver a Julia Roberts de prostituta em 1900 e bolinha ou chorar assistindo A Lista de Schindler. Mas eu gostei. Gostei da qualidade técnica, do elenco, da trilha sonora, da esperança de ver gente que não se vende e, principalmente, de saber que é brasileiro. Sai de lá como se tivesse desabafado por horas, mas ainda com um peso na consciência…   

O Sr. ator de primeira linha Wagner Moura interpretou ali, na verdade, tudo o que a gente um dia pensou – em silêncio ou não – em fazer com o traficante que mata criança, com o polícia que se vende ao ladrão e com o político que dá corda pra tudo isso acontecer. Sem hipocrisia, confusa confesso que ele lava a nossa alma (mesmo que por duas horinhas, via imagens de alta definição e no conforto da cadeira reclinável do shopping center). Coronel Nascimento é um animal com tanta emoção e, no fundo, inocência, que chega a ser humano. Tinha sangue nos olhos como profissional e lágrima nos olhos como homem. E não há magia maior do que ser de carne, osso, ira e coração. Que Super Homem, que nada. Eu prefiro os de verdade (?). Aposto que os milhões de brasileiros que sentarem lá vão preferir também… Coisa que gringo fã de Homem Aranha e Snoop Dog nunca farão (ou nunca serão!).

Tropa de Elite. Osso duro de roer. Pega um, pega geral e também vai pegar você. Já diria o funk certeiro.

pari esse texto em 22 de outubro de 2010

 

Recém chegada ao Brasil, depois de 40 dias fora, dei um Google pra procurar as notícias sobre as Eleições 2010. E aí, além do posicionamento dos candidatos carimbados, achei vários vídeos engraçados – pra não dizer trágicos – com recortes do horário eleitoral, que já viraram febre nas mídias sociais. Agora, o Enéas não é mais a única bizarrice das propagandas, que arrancava da gente aquela risadinha descomprometida. Ele é só mais um, quase incapaz de concorrer com as “celebridades” que ali apelam pelo meu voto. Mas o curioso é que elas não se preocupam em me dizer o que farão pelo país. Só me forçam a lembrar porque um dia se tornaram famosas… E daí, aquela risadinha descomprometida que eu dava do Enéas, virou revolta

Entre as figuras estão Ronaldo Esper, querendo “agulhar os políticos pra mudar Brasília” e Marcelinho Carioca, “querendo jogar no mesmo time que eu” (?). Tem também os que usam da sombra do descobridor da fórmula do ridículo, como Luciano Enéas – o filho – usando o óculos emprestado do papi e a assustadora Luciana Costa, soletrando “pe-do-fi-li-a”, no mesmo tom do seu ex-professor. O nepotismo dá as caras até aqui (Mas já, companheiro?): Kiko, cantor do Grupo KLB, recorre à popularidade do irmão bonitinho pra impulsionar a campanha. Os filhos de Ey Ey Eymael e do chapeleiro Raul Gil fazem figuração na telinha, enquanto os seus heróis sugerem que eu os escolha. E aí vêm os meus preferidos: Mulher Pêra, trajada com um espartilho digno da era Vitoriana, usando o seu solitário argumento que de “Jovem vota em jovem”; Mara Maravilha dizendo que conta com o meu voto pro esposo dela, um servo de Deus – afinal, “Política abençoada começa dentro de casa”; e o mais especial de todos… 

A música de fundo chama Florentina (de Jesus). E ele aparece trajado para o carnaval. Usa a mesma peruca, o mesmo chapéu e faz a mesma voz que sua personagem. Ele é Tiririca. Sim! O famoso humorista quer ser Deputado Federal! E nós sabemos que ele é um cidadão com plenos direitos pra tal. O problema é que fico na dúvida em quem eu estaria votando… Tiririca tem sobrenome? Pois Francisco Everardo – você não leu errado – Oliveira Silva tem. Mas ele não aparece na minha telinha… Quem aparece é o tal Tiririca. E ele é muito engraçado. Faz dancinhas, brinca comigo. Brinca tanto que me desrespeita. Ele fala errado, faz frases sem sentido e é de propósito. Me diz que quer ser deputado, mas não sabe o que faz um deputado. E ainda, pra fechar com chave de ouro, sorri cantarolando o slogan dele: “Vote em Tiririca, pior que tá não fica. Vote no abestado!”.

E é assim, com uma xícara de sinceridade dolorida, outra porção de apelos pobretões, e uma colherada de jargões teatrais, embalados em roupas estranhas e trejeitos esquisitos que zombam do meu e do seu direito. É com uma popularidade falida que hipnotizam a ignorância brasileira, confundem a sabedoria popular e atrasam o nosso desenvolvimento.

E pro politicamente correto que afirma que estou sendo preconceituosa, entenda isso como um desabafo sincero. Até outro dia, Mulher Pêra parecia atriz pornográfica tentando a sorte como dançarina de funk – e não o contrário. E eu não quero que ela me represente. Tenho medo das leis que ela iria elaborar. Mas ela insiste em querer o meu voto “jovem” pra virar Deputada Federal.

Mas se eu fosse um menino… Talvez eu votaria na Mulher Pêra dançarina e gostosona. E quantas fãs do grupo KLB não votariam no Kiko, porque ele é o sonho de consumo delas? Quantas pessoas que gostam do humor Tiririca não vão achar graça da sua propaganda eleitoral e traduzir essa simpatia na urna? E é desse abuso que eu tenho medo. Pois não consigo achar outro nome pra essa apelação marketeira, senão, abuso.

Enquanto a educação do povo brasileiro não supera os níveis básicos pro bom entendimento da nossa democracia, mais e mais candidatos se aproveitam da nossa inocência. E eles conseguem se aproveitar porque, infelizmente, a Constituição Federal só prevê como inelegíveis os analfabetos e inalistáveis… Mas, por mim, muitos outros entrariam nessa lista. A começar pelos abestados.  

pari esse texto em 20 de agosto de 2010

 

trecho disso tudo. saiu na Coluna Opinião do Jornal A Tribuna.

 

clones?

Na véspera do Dia das Mães, sentei com a minha genitora para assistir ao Concurso de Miss Brasil 2010. Modéstia a parte, mamãe daria uma ótima comentarista nestas competições de beleza. Mas não atualmente. O seu conhecimento sobre os concursos data das décadas de 60 e 70, época em que cada mulher candidata era única: única de cara, única de corpo, única de expressão.

Ontem, enquanto desfrutávamos daquele desbunde de mulheres pomposas, vimos repetir um modelo de concurso de beleza que não mais desperta a atenção de diferentes torcidas… Na verdade, se você tomar o cuidado de colocar a sua televisão no mute e tentar reconhecer a sua preferida ali no meio (sem julgar pela faixa com o nome do Estado), dificilmente irá acertar. E a razão para que isso aconteça é muito simples: nos últimos anos, existe um padrão “Natália Guimarães” de ser. Desde de que a linda morena nomeada como Miss Brasil 2007 acenou para as câmeras, a alta cúpula do Concurso tratou de providenciar 80% de seus clones para ocuparem os postos de candidatas à representante oficial da beleza brasileira. Ou pelo menos é o que parece…

Se você se questiona aí do outro lado da tela se eu sou mais uma pobre mulher invejosa, acalme seus ânimos. Não sou nenhuma desdentada mal amada, pelo contrário – e sem nenhuma modéstia. Mas, acima de tudo, sou sim uma admiradora e defensora da beleza da mulher brasileira. Ou melhor: da beleza natural da mulher brasileira. E é por isso que ainda me sinto confusa ao assistir aos Concursos atuais. As pernas são as mesmas pernas finas e sem grandes contornos. Os quadris têm a mesma medida. Os bustos têm os mesmíssimos formatos e mililitros. O nariz, ai o nariz… Provavelmente são obras do mesmo Doctor Hollywood. E o mesmo vale para os cabelos pintados no mesmo tom, secos com o mesmo volume, feitos no mesmo molde de babyliss. Salvo as raras exceções, que assumiram seus cabelos frisados e seus narizes de batata – puramente maravilhosos – as nossas misses são todas Natálias.

Em meio a tanta mesmisse, vale ressaltar que sim, houve mudanças no show. Não fosse pelo excesso de publicidade que impacta o telespectador, na tentativa de competir com o brilho do sexo frágil ali exposto – necessária para a sobrevivência desta apresentação na única emissora que ainda se presta à atividade – assistir ao Concurso seria como reprisar continuamente o mesmo filme. As exigências pra se subir ao palco atualmente também foram “enriquecidas”, por assim dizer… Agora, por exemplo, as candidatas são todas jovens universitárias, futuras advogadas e administradoras em sua maioria. Elas também falam um português muito mais correto que o do Presidente da República Federativa que almejam representar (coisa lá não muito admirável).

Mas, por mais que tentem desvirtuar nossa atenção para estas características “cults”, a razão fundamental para aquelas meninas-mulheres estarem ali não são essas. E não precisa ser gênio pra saber disso! Elas estão ali prioritariamente pela sua beleza, dispostas a exibirem graciosamente suas dádivas físicas. E, infelizmente, pelo padrão que se estabeleceu como ideal, a magnitude do Miss Brasil perdeu o brilho, virou insossa…

E é aí que me pergunto: onde foram parar as Sandras, Leilas, Kátias e Marias? As misses da época de mamãe, que eram únicas nos seus cabelos com fios fora de lugar, maquiagens de filhotes de travesti, donas de corpos acinturados, com barriguinhas salientes e bumbuns sexys? Sinto falta, mesmo sem ter assistido em tempo real, das tímidas celulites destas memoráveis mulheres. Mulheres naturalmente misses. Ou misses naturalmente mulheres, como preferir.

Obs. Se você ainda dúvida deste texto, acesse o site oficial do Concurso Miss Brasil, pesquise pela história da competição, observando as fotos das vencedoras desde 1954… Agora me diga, a diversidade não falava mais alto?!
(eu te ajudo, ó!)

pari esse texto em 9 de maio de 2010

Sou cercada de amigos gays. E já é indiscutível entre eles: Lady Gaga é a Madonna dos novos tempos. Mas eu, que ainda tenho lá minhas dúvidas sobre a magnitude exclusiva da moça, me pergunto: quantas Lady Gagas estão ou já estiveram lady gagando por aí – e, principalmente, por aqui?

Não sou fã do estilo pop moderninho, mas também não desgosto. Eu ouço as rádios jovens e, consequentemente, ouço todos os rappers e cantoras sexys que estão em alta. Qualquer um que se preste a fazer o mesmo, há de encarar a seguinte realidade: estamos expostos aos hits consagrados pelos altos jabás internacionais, que tocam exaustivamente nas top-10-paradas-de-sucesso-dos-deejays, por consecutivos meses… (Aliás, salvem os mp3, ipods e engenhocas do gênero, que nos oferecem a mobilidade auditiva). Mas, enquanto sou pega insistentemente pelos sons destes astros de Hollywood, me questiono sobre a potencialidade brasileira de lançar músicas tão sensuais e apelativas quanto.

Dizem que Lady Gaga inovou. E eu lhe pergunto: quando, aqui no Brasil, subiram numa “moto envenenada”, estavam fazendo o que? Ninguém falou em inovação. As críticas choveram torrencialmente em cima da “pobreza” de conteúdo, da “apelação” ao corpo feminino, etc., etc., etc. Pois tirando a luxúria dos lingeries, máscaras e penteados tresloucados; os gemidos, o teor de algumas letras e a exposição corporal de Gaga me parecem muito semelhantes aos da cantora de funk – da qual eu nem lembro o nome, confesso envergonhada. Veja bem, são semelhantes; mas a “nossa” versão vêm sem o glamour americanizado da coisa. O que faz toda a diferença para os olhos e ouvidos encantados daqueles que consomem o produto.

Trato aqui da nossa tendência de achar a arte e, em especial, a música do brasileiro uma coisa brega. O que entendo como resultado de falta de reflexão – na maioria das vezes, do pessoal mais próximo do Chuí. Digo isso porque, se analisarmos com olhos de nortistas, o fenômeno Joelma, da banda Calypso, chegou estrondoso muito antes que Gaga… Enfim. Outro dia, assistindo ao clipe da música Telephone, em que a artista em questão provoca ao lado de Beyoncé, tive que me render a conclusões do tipo: com um pouco menos de remix e, em português, o É o Tchan já dava conta desse recado há tempos. Porém, com credibilidade zero.

Ok, ok. Antes que meus amigos freqüentadores da The Week pulem no meu pescoço, defenderei os méritos de Lady Gaga. Ela sacudiu o mercado com as suas versões andrógenas e letras nada puritanas. Fala de homem sem escrúpulos. É digna de performances circenses de alto padrão. Recebe nota dez no quesito ousadia. Tanto que fez gente consagrada copiar a fórmula – Christina Aguilera, no seu novo clipe “Not myself tonight”, parece ter fugido das gravações da novata.

Mas vim fazer as honras da casa. Longe de ser uma ouvinte nerd, que acha que Bossa Nova é a única linha da música que presta, acho que música é música, seja do Brasil ou da Eslováquia. Serve pra entreter, provocar o balanceio do esqueleto, fazer lembrar dos ex-namorados e causar o choro de saudades do pai que faleceu. Música é tudo isso!

Acontece que não posso mais negar: pra mim, ladygagar é o jeito importado de fazer a mulher melancia. Made in USA… É aí que mora o perigo. E a falta de amor próprio do tupiniquim.

(pari esse texto em 11 de fevereiro de 2010)