Recém chegada ao Brasil, depois de 40 dias fora, dei um Google pra procurar as notícias sobre as Eleições 2010. E aí, além do posicionamento dos candidatos carimbados, achei vários vídeos engraçados – pra não dizer trágicos – com recortes do horário eleitoral, que já viraram febre nas mídias sociais. Agora, o Enéas não é mais a única bizarrice das propagandas, que arrancava da gente aquela risadinha descomprometida. Ele é só mais um, quase incapaz de concorrer com as “celebridades” que ali apelam pelo meu voto. Mas o curioso é que elas não se preocupam em me dizer o que farão pelo país. Só me forçam a lembrar porque um dia se tornaram famosas… E daí, aquela risadinha descomprometida que eu dava do Enéas, virou revolta

Entre as figuras estão Ronaldo Esper, querendo “agulhar os políticos pra mudar Brasília” e Marcelinho Carioca, “querendo jogar no mesmo time que eu” (?). Tem também os que usam da sombra do descobridor da fórmula do ridículo, como Luciano Enéas – o filho – usando o óculos emprestado do papi e a assustadora Luciana Costa, soletrando “pe-do-fi-li-a”, no mesmo tom do seu ex-professor. O nepotismo dá as caras até aqui (Mas já, companheiro?): Kiko, cantor do Grupo KLB, recorre à popularidade do irmão bonitinho pra impulsionar a campanha. Os filhos de Ey Ey Eymael e do chapeleiro Raul Gil fazem figuração na telinha, enquanto os seus heróis sugerem que eu os escolha. E aí vêm os meus preferidos: Mulher Pêra, trajada com um espartilho digno da era Vitoriana, usando o seu solitário argumento que de “Jovem vota em jovem”; Mara Maravilha dizendo que conta com o meu voto pro esposo dela, um servo de Deus – afinal, “Política abençoada começa dentro de casa”; e o mais especial de todos… 

A música de fundo chama Florentina (de Jesus). E ele aparece trajado para o carnaval. Usa a mesma peruca, o mesmo chapéu e faz a mesma voz que sua personagem. Ele é Tiririca. Sim! O famoso humorista quer ser Deputado Federal! E nós sabemos que ele é um cidadão com plenos direitos pra tal. O problema é que fico na dúvida em quem eu estaria votando… Tiririca tem sobrenome? Pois Francisco Everardo – você não leu errado – Oliveira Silva tem. Mas ele não aparece na minha telinha… Quem aparece é o tal Tiririca. E ele é muito engraçado. Faz dancinhas, brinca comigo. Brinca tanto que me desrespeita. Ele fala errado, faz frases sem sentido e é de propósito. Me diz que quer ser deputado, mas não sabe o que faz um deputado. E ainda, pra fechar com chave de ouro, sorri cantarolando o slogan dele: “Vote em Tiririca, pior que tá não fica. Vote no abestado!”.

E é assim, com uma xícara de sinceridade dolorida, outra porção de apelos pobretões, e uma colherada de jargões teatrais, embalados em roupas estranhas e trejeitos esquisitos que zombam do meu e do seu direito. É com uma popularidade falida que hipnotizam a ignorância brasileira, confundem a sabedoria popular e atrasam o nosso desenvolvimento.

E pro politicamente correto que afirma que estou sendo preconceituosa, entenda isso como um desabafo sincero. Até outro dia, Mulher Pêra parecia atriz pornográfica tentando a sorte como dançarina de funk – e não o contrário. E eu não quero que ela me represente. Tenho medo das leis que ela iria elaborar. Mas ela insiste em querer o meu voto “jovem” pra virar Deputada Federal.

Mas se eu fosse um menino… Talvez eu votaria na Mulher Pêra dançarina e gostosona. E quantas fãs do grupo KLB não votariam no Kiko, porque ele é o sonho de consumo delas? Quantas pessoas que gostam do humor Tiririca não vão achar graça da sua propaganda eleitoral e traduzir essa simpatia na urna? E é desse abuso que eu tenho medo. Pois não consigo achar outro nome pra essa apelação marketeira, senão, abuso.

Enquanto a educação do povo brasileiro não supera os níveis básicos pro bom entendimento da nossa democracia, mais e mais candidatos se aproveitam da nossa inocência. E eles conseguem se aproveitar porque, infelizmente, a Constituição Federal só prevê como inelegíveis os analfabetos e inalistáveis… Mas, por mim, muitos outros entrariam nessa lista. A começar pelos abestados.  

pari esse texto em 20 de agosto de 2010

 

trecho disso tudo. saiu na Coluna Opinião do Jornal A Tribuna.