meu pé. gordo, tatuado e... descalço.

 

A gente nasce e ganha só nome e sobrenome, dependendo da variável pirulito ou perereca. Fofo, né? Mas aí tomamos fermento e ganhamos escudos. Certificados, estado civil e trocentos outros títulos colados na testa. Assumimos toda essa postura, mudamos a cara no espelho e saímos com nossos personagens mais agradáveis, chocantes ou criticáveis. A matemática é simples: exibir, atrair, impor (e você nem percebe que está fazendo todo esse cálculo).

Freud explica cada uma das facetas, aprendi na faculdade. “Janela de Johary”, certo? Uma pra cada ambiente, uma pra cada grupo: área cega, secreta, aberta e a do Eu desconhecido. Essa deve ser a mais incrível… Só que segundo os psicólogos sabichões que inventaram a teoria (não foi Freud), é justo a que nem você, nem os outros conhecem de você. Poxa, pra que tanto mistério? É a bem-vinda auto-programação social, que nos protege desse pedaço escondido, que às vezes tentamos chegar perto – e, muitas outras vezes, nos afastamos. Se respingou semelhança por aí, fique tranqüilo. Acontece nas melhores famílias.

Hoje somos pai, mãe, filho, neta. Estilosos, bregas. Umbandistas, judeus. Incrédulos,crentes. Gringos, brazucas. Viajados, poliglotas, turistas de cruzeiro. Lusho, ryqueza.  Pagodeiros, DJs, emos. Altões, anões. Héteros, flácidas. Gays, siliconadas. Sarados, porpetas. Populares, nerds. Antenados, out. Estudantes, professores. Apaixonadas, frustradas. Garanhões, quietos comedores. Fieis, judas. Virgens, safadas. Sexys, ruins de cama. Terceira idade, jovens, flores da idade. Geração X, Y, Z, Millenium. Bem sucedidos, desempregados. Recém formados, seniores. Petistas, democratas. Clientes, empresa. Egoístas, voluntários. Alcoólicos sociais, maconheiros. Tatuados, eco-chatos. Caretas, consumidores de sacos plásticos. Japonesas, pretos, loiras. Paulistanos, cariocas. Ufa…

Agora pensa comigo: se lá, quando nos deram nome e sobrenome, oferecessem também um cardápio, quantas dessas (e muitas outras) opções você não escolheria pra si, pra usar feito roupa íntima? Os rótulos nos definem, são como calçar os sapatos pra pisar fora de casa, úteis pra todo dia – mas não pro dia todo. Sábios japorongas que não deixam ninguém entrar em casa com outra coisa no pé, senão a sola.  

(Viu? “Japorongas”. Sou viciada nos muitos rótulos, admiro os mais diferentes)

Mas começamos do mesmo jeito, aqui ou do outro lado do mundo. E podemos terminar tão diferentes… Fiz recentemente esse exercício de voltar às origens e foi difícil pacas! Porém, rendeu. Tolerância, sabedoria e amigos especiais que nem cogitava ter. Aí que deve morar o lance mágico da meditação – mas do jeito tradicional sempre achei impossível fazê-la, porque nunca localizo o botão off do cérebro. Nos minutinhos introspectivos antes de pegar no sono, afundei num método caseiro e intuitivo: ao invés de parar de pensar, pensei e arranquei etiqueta por etiqueta de cada uma das roupas que me cobrem. Se quiser tentar, minha dica é aplicar em si próprio e depois tentar estender aos seus comuns. Não! Veja bem, não é pra imaginar família, amigos e chefes peladões! Pense nos que ama e que te rodeiam se livrando das etiquetas deles. Fiz isso também, mas confesso que preciso de mais prática… Ficar nu ao lado do outro ainda é tabu, resolvi me vestir.

Enfim, a alma agradece o despir solitário, a reflexão de gente grande feito bebê recém nascido de documento pra fora. O universo também. Pra isso, procure o seu vazio. E (só) descalce o próximo!