Essa semana vi um post no twitter da Revista Vida Simples pedindo histórias de leitores sobre a pauta “À sombra da perda”. Foi bem automático pra mim, ao ouvir falar em perda, pensar em morte. E daí eu corri pra minha caixa de saída e estapeei meu teclado durante 5 minutos escrevendo um e-mail de alguns (vários) mil toques para a redação. Mais tarde entendi que o foco “perda” à que a Vida Simples estava se referindo, nem era esse… Mas como não acredito em coincidência, vi que o que escrevi no tal e-mail há uns dias atrás, tinha tudo a ver com hoje.

Hoje, dia 21 de outubro de 2010, faz dois anos que a maior dessas perdas se concretizou na minha vida. Mas eu prefiro não pensar assim. E explico aqui replicando parte do que mandei (talvez erroneamente, rs) pra redação da tal Revista.

Tenho 22 anos e já “perdi” muita gente. Foi vó (as duas), vô (os dois), madrinha (aquela tia que você sempre chamou de preferida, sabe?), outros familiares fofos e o mais punk de todos: perdi meu pai. E meu pai era único – assim como todos os outros são.

Com essa sequência non grata, que vi acontecendo enquanto era pequena, fui também me acostumando a não ter a morte como uma morte. Confuso? Fica mais simples quando sua mãe te leva no velório e mostra que ali não é lugar de fantasma, nem só “de adulto”. É a vida, acontecendo na sua sequência mais verdadeira.

Vejo muita gente se descabelando por uma coisa inevitável (sim, há exceções, trato aqui das mortes ‘naturais’), tendo medo daquilo que ninguém escapa. E nem teria por que querer escapar… Ou você gostaria de viver até os 200 anos? Eu não. Gosto do meu corpo com liberdade de movimentos, com força pra acontecer, sem vícios. Gosto da minha cabeça podendo tomar decisões, gosto de saber que estão me entendendo e de poder ser teimosa sem ter ninguém querendo me jogar uma pílula goela abaixo pra acalmar meus ânimos. E aos meus queridos idosos, não me entendam mal. Admiro e invejo tua sabedoria e abro o coração pra qualquer sermão de décadas passadas – mesmo que for pra me ensinar que leite com manga mata. Acredite: eu vou ouvir e dar corda, com todo o carinho e respeito sincero que lhes dedico. Mas acho que tudo tem que ter um fim.

Comigo foi assim. Aprendi que a gente não pode ter pra sempre aqueles que conhecemos desde o começo da vida, ou pelo menos não do mesmo jeito. Aprendi que quando a saudade aperta (porque no fundo, no fundo, o que sobra da morte de mais puro é a saudade), o que tem que te alimentar não é a dor do “nunca mais vou ver“. Porque eu posso fechar o olho e ver, sentir, abraçar. Me arrisco até a conversar. E é sempre delicioso… (já tentou?)

Falei da pureza da saudade, porque às vezes a gente confunde as coisas. Minha mãe costuma dizer que as pessoas deveriam morrer pobres. E eu concordo. Todo mundo devia gastar seus quinhões em vida, fazendo o que achasse por bem fazer. Não há nada mais decadente do que depois da morte daquela pessoa especial, você ter que ver o saldo na conta dela. Essa divisão dos pães deveria ser cremada, querida sociedade.

Mas além da importância da energia que passa a te rondar depois do episódio – nada de preto deprê pela casa ou grito com os irmãos sobre a venda da propriedade ‘tal’ -, não posso negar a relevância das religiões. Pedir pra Deus cuidar, pro anjo guiar, pra flor que você encomendou em pensamento chegar lá… são algumas das coisas que aprendi com o espiritismo. E cá entre nós, nem precisa ser fã de Allan Kardec pra entender tudo isso. A mensagem mais simples e mais eficaz que assumi pra lidar com a morte foi: “Se eu ficar bem, e em paz, eles também vão ficar”. Porque uma das teorias mais bonitas dessa religião defende isso, que a tranquilidade de quem fica e vê o outro partindo é essencial pra que eles evoluam espiritualmente. E é maravilhoso pensar que seu esforço daqui pode ajudar por lá!

Pra provar que, no fundo, a maioria das religiões fala a mesma coisa, com dialetos diferentes, mostro aqui o poder do catolicismo, na qual também me apoio. No dia em que tive que dar adeus à aparência do meu herói, enquanto o padre fazia a oração e eu olhava pro olhinho dele fechado ali – ao mesmo tempo tão perto e tão longe de mim – recebi a seguinte oração que faço questão de entregar pra qualquer pessoa que acaba de passar pelo mesmo.

Se você me ama, não chore por mim.
Se você conhecesse o mistério insondável do céu onde me encontro…
Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e vejo nesses horizontes sem fim e nesta luz que tudo alcança e penetra, você jamais choraria por mim.
Eu estou agora absorvido pelo encanto de Deus, pelas suas expressões de infinita beleza.
Em confronto com esta nova vida, as coisas do passado são pequenas e insignificantes.
Conservo todo o meu afeto por você, com aquela ternura que sempre nos devotamos.
O amor que lhe dediquei permanecerá na eternidade, íntegro e forte… E eu sigo na serena expectativa da sua chegada.
Pense em mim em plena alegria da vida, pois nesta maravilhosa morada não existe a morte.
Se você verdadeiramente me ama, não chore mais por mim.
Eu estou em paz, eu estou com Deus.

O autor da linda sequência é Santo Agostinho. Adivinhem o nome do meu pai… (Acaso? rs). E a oração tem tudo a ver com ele: o cara não piscaria uma vez sequer pra decidir se preferiria ver os passarinhos voando num céu paradisíaco ou me ver chorando. Soa óbvio? Pode ser, mas só quem conviveu com ele sabe da intensidade dessa verdade.

Enfim, entre as conversas cabeça que tenho com meus amigos e amigas nos bares da vida, a morte é um tabu. Ainda sinto o corpo deles se retraindo quando alguém toca no assunto, seguido de um olhar tímido e arrependido daquele que mencionou o tema – como se aquilo fosse uma bola fora que iria acabar com meu dia… E o que tento explicar até hoje pra esses seres incríveis que me rodeiam é que, ao contrário do que pensam, eu não fui FORTE quando meu paizinho partiu. Não é essa a palavra. Outro dia, uma delas me disse: “Você estava acalmando as pessoas no enterro, não era pra ser o oposto?!”. E eu respondo: escolhi assim. Escolhi entender que aquilo era o melhor.

Dor maior do que ver o grande homem da minha vida numa UTI por 20 dias – sem poder nadar, sorrir e comer uma macarronada – não existe. Saber que ele não iria mais sofrer era a minha cura. Eu não precisava me agoniar, o pior já tinha passado.

Meu pai é meu pai. Sempre será. E o que ele me fez ser, ninguém desse mundo muda.

Esse vídeo eu fiz pro meu Agostinho, assim como a tatuagem que aparece no final. Passei horas procurando e escaneando fotos que traduzissem a simplicidade magnífica daqueles olhos azuis. E lidei com o choro dessas horas… Atenção! Lidar não é engolir. É aceitar aquelas lágrimas. Confesso que até hoje despenco quando assisto. Só que é um choro bom, me limpa. Faz pensar que ele está assistindo comigo.

Paizinho, luz. Hoje faz dois anos que a saudade me fez te amar mais. Esse post é seu. Pra abençoar meu blog.  ;D

ps. A morte ensina! E muito!